Todo consumo tem uma razão

Por Osvaldo Colombo em entrevista com Adriana Masieri – especialista em reabilitação de adictos em Suplemento Salud (05/11/2004)

Para a psicóloga, vivemos em um sistema cru em que as drogas lhe são funcionais. Com a concorrência envolvida, muitos buscam fugir da realidade de uma forma cômoda, que não incomoda o resto: fechando-se em si mesmos. Pela Antroposofia, a especialista argentina afirma que está cooperando para curar a sociedade.

“A Antroposofia tem um olhar humanista. Sua medicina não é tóxica, pois nossos pacientes recebem medicamentos naturais como parte de um processo que serve ao desenvolvimento do ser humano”, observa convencia.

Quando uma pessoa deve ser classificada como adicta?
O limite está claro. Existem pessoas que não consomem, as consumidoras e as adictas. Tem indivíduos que consomem álcool e outras drogas de forma ocasional e existem outros que sob qualquer pretexto estão ingerindo algum alucinógeno. Alguém que está “preso” sempre dirá que consegue controlar as drogas e pode parar quando quiser. Rigorosamente, uma pessoa é adicta quando não pode ficar sem a substância. As razões podem ser fisiológicas (que o corpo peça a droga) ou comportamentais (como fumar maconha todos os dias).

Quem deve notar o problema: quem está ao redor ou a própria pessoa?
Podem acontecer as duas coisas. Há quem se dá conta de que a situação está escapando de suas mãos e que já não depende de sua vontade decidir quando voltar a consumir. Caso isso não aconteça, começam a apresentar eventos que fazem com que a família se dê conta do problema.

A que eventos se refere?
Basicamente acidentes fatais ou com danos irreversíveis, overdoses ou doenças mentais. Além disso, o dano que se produz nas relações; um adicto expões seus entes queridos a rupturas muito profundas.

Que condições necessita uma pessoa que começa a reabilitar-se?
Deve existir uma compreensão do problema e a esperança de que este possa ser resolvido por um caminho não tóxico e baseado na autodeterminação. A ideia é reconstruir a vida, que o paciente possa reinserir-se na sociedade de uma forma autônoma.

Que problemas podem aparecer?
O pior é a desintoxicação. É um quadro que tem sintomas muito difíceis: mudanças bruscas de humor, agressividade, insônia, irritabilidade, etc.

Superada esta primeira etapa: o que acontece depois do tratamento?
Em seguida, vem o tratamento psicológico que permite iniciar um processo de reconstrução: descobrir as razões para o vício e resolve-las. É um processo de reposicionamento social.

Qual é a porcentagem de recuperação entre os pacientes?
Na minha experiência e tratamento, cerca de 50 por cento.

O que acontece com um reabilitado que consome novamente, mas só de vez em quando? É considerado novamente um adicto?
Eu não tenho referências de pacientes recuperados que voltaram para o mesmo ritmo de consumo que tinha antes do tratamento (que é considerado como recaída). É claro, alguns voltaram a consumir, mas com moderação.

Neste processo de recuperação qual é o papel das amizades?
É algo muito crítico. Um consumidor geralmente está cercado por outros consumidores, o que é muito doloroso. Uma pessoa que quer deixar a droga precisa muito de seus amigos, mas acontece que eles estão tão prejudicados quanto ele. Geralmente ocorre que, quando uma pessoa quer sair de um grupo imerso em drogas, é considerado como um traidor.

E o papel da família?
É essencial, mas quero deixar claro que todo consumo tem uma razão e que por trás de cada adicto grave há uma história complicada. Há dores familiares que se podem e outras que não.

O que acontece com os viciados em medicações? As estatísticas do Chile são as mais altas da América do Sul.
E até muito recentemente eram vendidos sem receita médica. O Chile tem dois problemas: quando se trata de droga todos fica com medo, mas se aceita o álcool e cigarros durante todo o fim de semana. As taxas de depressão, alcoolismo e consumo de psicofármacos no país estão entre as mais altas do mundo. E, no fundo, dá no mesmo se é um calmante ou a cocaína, porque o efeito é o mesmo: enganar a consciência.

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