O Desafio da Paternidade e Maternidade nos Dias de Hoje – Parte III

Palestra proferida pela Dra Ana Paula I. Cury na Escola Waldorf Rudolf Steiner em 29.03.2012 em A Boa Terra

O Significado de Ser Mãe ou Pai

De acordo com a Dra Michaela Gloecker, em seu Consultório Pediátrico“os termos mãe, pai e filho sempre tiveram um significado duplo – um natural e um ideal. Inicialmente, é a criança que faz a mãe ser mãe e o pai ser pai, por meio da procriação, da concepção, da gestação e do parto. Nessa sucessão, a mulher vivencia o processo de tornar-se mãe como um processo predominantemente corporal, em que a criança se apodera dela e nela se desenvolve. O homem, no entanto, embora tenha impulsionado o processo fisicamente, vivencia o tornar-se pai principalmente no âmbito anímico. A ele cabe o papel de acompanhar a gravidez e o parto com uma atitude de observação sensível. O resultado sensato disso é que ele pode estar à disposição para ajudar, não apenas nas semanas e meses após o parto, mas, além disso, para cuidar da base existencial exterior da família em desenvolvimento. No pai isso coincide com uma tendência instintiva. Ele fica feliz em poder fazer algo para a proteção, a segurança e as necessidades da mãe e da criança; fica magoado quando é impedido de realizar esses feitos, ou quando seus esforços não são levados a sério. O elemento especificamente paterno está na capacidade de estar presente interiormente e exteriormente, quando a mãe e o filho necessitam dele, percebendo-os e levando-os em sua consciência. Essa é a origem do profundo sentimento de pertinência, que permite à mãe e ao filho sentirem-se protegidos animicamente.

Neste espaço anímico aberto pelo interesse paterno, as habilidades específicas da mãe podem desenvolver-se com a maior efetividade possível: estas consistem na prontidão e na abertura amorosas, necessárias para executar com paciência e alegria os infinitos atos repetitivos requeridos pelo crescimento da criança no período inicial. Dispensada, sempre que possível, das preocupações materiais, a mãe pode dedicar-se livremente ao filho. Essa situação se estende até o momento em que a criança desenvolve por si mesma a tendência a passar regularmente algumas horas do dia em outros espaços vitais, isto é, quando ela se torna madura para freqüentar o jardim de infância. No caso de uma relação a três intacta, ela pode assimilar então, de maneira marcante, o modo como dois adultos inteiramente diferentes lidam entre si e com ela, possibilitando seu desenvolvimento como ser humano.

Reconhecendo as necessidades específicas para o desenvolvimento da criança pequena, os órgãos oficiais instituíram a licença maternidade, com duração de quatro meses.

Queremos salientar que ser mãe, isto é, estar de corpo e alma à disposição das crianças durante o dia inteiro, representa uma atividade profissional plenamente válida. Seria correto ter um reconhecimento financeiro a partir dos recursos públicos! Quando, principalmente na fase pré-escolar as crianças podem ter um verdadeiro lar, um espaço vital em que sejam percebidas e onde alguém se dedique a elas, não sendo a mãe obrigada a trabalhar fora para ganhar dinheiro, elas manifestam sua gratidão aos pais com saúde e alegria de viver.

or isso recomendamos, no interesse das crianças, que se aproveite esta oportunidade sempre que possível. Nada pode substituir as vivências infantis de proteção, confiança e relacionamento constante nos primeiros três anos.

Mesmo quando os pais dividem esta tarefa entre si, ainda se mantém um gesto fundamental, ideal, dessa trindade: no centro, a criança, que exige e aceita tudo com naturalidade, e a seu lado, os pais, que acompanham seu desenvolvimento, alegram-se com seus progressos e, como retribuição, recebem o amor e a confiança do filho.

Com isso tocamos o lado ideal do que significa ser pai e mãe: com toda a naturalidade, a criança vive protegida e com plena confiança nos pais. Porém a mãe e o pai são como que os representantes daquilo que em todas as religiões foi venerado como aspectos divinos paterno e materno, ao lado do elemento eternamente em devir e que, no cristianismo, tem sua designação suprema na Santíssima Trindade. Quem quando criança, experimentou a aceitação carinhosa e sem reservas de sua própria essência tal qual ela é, e também o empenho para se atingir o que é puramente humano, verdadeiro e bom, gosta de lembrar-se de sua infância mesmo que tenha sofrido pobreza e penúria materiais. Jacques Lusseyran declarou em sua biografia que o amor que seus pais nutriam por ele, criança cega, era como a armadura mágica que, uma vez colocada, protege por toda a vida.”

Assim, reconhecemos que há um ideal. Mas na prática, o que acontece? Será que conseguimos honrar esta imagem de Pai e de Mãe? Será que conseguimos ser assim? Vejamos…

O Desafio de Educar os Filhos

Educar os filhos é uma das tarefas mais instigantes, trabalhosas, e estressantes do planeta. É também uma das mais importantes e gratificantes, pois através dela se marca profundamente a próxima geração, influenciando-lhe o coração, a alma, a consciência, a experiência de sentido e ligação, o repertório de habilidades para a vida e os mais profundos sentimentos que essa geração tem sobre si mesma e seu possível lugar num mundo em transformação acelerada. Entretanto, quando nos tornamos pais, fazemos isso praticamente sem qualquer preparação ou treino; muitas vezes com pouca ou nenhuma orientação e apoio, e tudo isso num mundo que valoriza muito mais o produzir do que o nutrir, o fazer do que o ser.

Tipicamente, o trabalho de criação dos filhos é uma jornada para a qual se parte sem uma estratégia clara nem uma visão panorâmica do terreno, mais ou menos com a postura intuitiva e otimista que assumimos diante de outras situações da vida. Aprende-se com a prática. Não há de fato outra maneira.

É verdade que existem inúmeros “manuais” sobre educação de filhos e que podem até ser úteis como referência, mostrando-nos novas maneiras de ver as situações ou tranqüilizando-nos ao comprovar, especialmente quando ainda somos inexperientes, que há várias formas de lidar com as coisas e que não estamos sós.

Mas o que estes livros não costumam abordar é a experiência interior do trabalho de educar os filhos. Como não se deixar engolir por tantas dúvidas, incertezas, inseguranças, problemas reais que enfrentamos na vida, momentos de conflito interno ou com terceiros, inclusive com os próprios filhos? Esses livros também não dizem como podemos nos tornar mais sensíveis e dar mais valor às experiências interiores dos nossos filhos.

Para sermos pais conscienciosos, precisamos fazer um trabalho interior conosco mesmos aliado ao trabalho exterior de criar e proteger nossas crianças. O conselho técnico que podemos aprender nos livros para nos ajudar no trabalho exterior precisa ser complementado por uma autoridade interna que só podemos cultivar e conquistar em nós mesmos por meio da lapidação de nossa experiência pessoal. Esta autoridade interna só se desenvolve quando nos damos conta de que, apesar de todos os acontecimentos que escapam ao nosso controle, continuamos sendo primordialmente através das escolhas que fazemos em razão desses fatos, e através do que partiu de nós mesmos, os autores de nossas vidas. Ao perceber isso, podemos acabar reconhecendo o quanto é importante para nossos filhos e nós mesmos assumir responsabilidade pela forma como vivemos nossa vida e pelas conseqüências das escolhas que fazemos.

A autoridade e autenticidade interiores podem ser extraordinariamente desenvolvidas se fizermos esse trabalho interior. Nossa autenticidade e nossa sabedoria aumentam quando estamos conscientes das coisas que fazemos. Quando temos nossa atenção presente em cada pensamento, ato ou palavra. Com o tempo, podemos aprender a conhecer mais profundamente cada um de nossos filhos e saber o que precisam e tomar a iniciativa de descobrir formas apropriadas de educá-los promovendo seu crescimento em todos os sentidos. Também podemos aprender a interpretar os sinais diversos e muitas vezes enigmáticos que ás vezes eles nos enviam através de seu comportamento e confiar em nossa capacidade de encontrar uma maneira adequada de agir. Atenção, exame e consideração constantes são essenciais neste caminho.

Podemos nos tornar pais intencional ou inadvertidamente, mas, seja como for, a paternidade e a maternidade são uma vocação. Na realidade, trata-se de nada menos que uma disciplina espiritual rigorosa – a busca do ideal de realização do que há de mais profundo e verdadeiro em nossa natureza como seres humanos. O simples fato de nos tornarmos pais é um estímulo contínuo para a manifestação do que temos em nós de melhor, mais amoroso, sábio e carinhoso, para sermos as melhores pessoas que pudermos ser.

Lidar com filhos anuncia todo um conjunto novo de solicitações e mudanças em nossas vidas, exigindo que renunciemos a muitas coisas conhecidas e que assumamos outras tantas desconhecidas. Em geral contamos apenas com nossos instintos humanos mais profundos e a bagagem que trazemos de nossa infância, tanto a positiva quanto a negativa, para enfrentar o território desconhecido de ter filhos e educá-los.

E assim como na vida quando nos vemos diante de pressões familiares, sociais e culturais para observar normas em geral tácitas e inconscientes, e de todas as tensões inerentes ao exercício da paternidade, apesar de nossas melhores intenções e do amor que sentimos por eles, muitas vezes estamos ligados no piloto automático. Além disso, quanto maior for nossa preocupação com o tempo, a nossa pressa, tanto menor será o nosso contato com a riqueza, o viço do momento presente Esse momento pode parecer demasiado comum, rotineiro ou fugaz para merecer atenção, e vivendo assim, facilmente caímos na armadilha do automatismo ilusório, enquanto mantemos a crença de que tudo o que fazemos por eles é certo.

Uma atuação automática, não permeada pela atenção consciente pode causar danos profundos ao desenvolvimento da criança. A atitude inconsciente em relação à educação dos filhos também conspira para deter nosso crescimento potencial como pais. Essa inconsciência traz, muitas vezes, tristeza, oportunidades perdidas, sofrimento, ressentimento, censura, sentimentos de autodesvalorização, e outras coisas mais. Se formos capazes de permanecer despertos para os desafios e a vocação da paternidade/maternidade, isso não precisa acontecer. Ao contrário, podemos usar todas as ocasiões que surgirem com nossos filhos para derrubar barreiras em nossas próprias mentes, para enxergar com mais clareza dentro de nós mesmos e estar presentes para eles de modo mais efetivo.

Um dos grandes desafios de se educar filhos em nossa época vem do fato de vivermos numa cultura que não valoriza muito o ofício da maternidade como trabalho válido e honrado. Considera-se perfeitamente aceitável as pessoas dedicarem-se integralmente às suas carreiras ou às suas relações, ou círculos sociais, mas há bem pouco apoio, às vezes até críticas veladas ou mesmo abertas à postura de quem escolhe dedicar-se aos filhos.

A sociedade como um todo, com seus valores e instituições que moldam e ao mesmo tempo refletem o microcosmo de nossas mentes e valores individuais,  contribui muito para desvalorizar o trabalho de educação das crianças. Quem recebe os maiores salários no país? Certamente não quem trabalha em creches, nem os professores, cujo trabalho tanto apóia a tarefa dos pais. Onde estão os exemplos, as redes de apoio, o trabalho compartilhado e o trabalho em meio expediente para mães e pais que não se contentam em ficar apenas umas poucas semanas com seus filhos recém-nascidos em casa? Onde estão os subsídios para jovens pais, os cursos de pais, programas adequados de licença paternidade e maternidade, que, por sua prevalência, nos mostram que o trabalho de educar os filhos é da maior importância e é altamente valorizado pela sociedade?

Certamente há coisas boas e razões para se ter esperança. Há também quem veja sua função de pai/mãe como uma missão sagrada, e encontra maneiras criativas e calorosas de orientar seus filhos e cuidar deles, muitas vezes enfrentando grandes obstáculos e dificuldades. Existem também os que se ocupam em criar programas e serviços de orientação às famílias, oferecer conhecimento, alternativas saudáveis de recreação, e assim por diante.

Mas os problemas são desconcertantes e estão criando um ambiente social em que é cada vez mais difícil para as famílias educar filhos saudáveis. Manifestações tangíveis e diárias de amor, apoio, energia e interesse por parte de adultos de carne e osso e respeitados estão-se tornando cada vez mais raras hoje em dia.

Porém, se de um lado somos sujeitos a grandes forças sociais que moldam nossas vidas e as vidas de nossos filhos, por outro, também temos a capacidade como indivíduos de escolher conscientemente como vamos nos relacionar com as circunstâncias e com a era em que vivemos. Todos nós temos o potencial para traçar nossos caminhos, para viver com mais atenção e intencionalidade, e para tentar ver e honrar as profundas necessidades espirituais de nossos filhos e as nossas da melhor forma possível. Traçar um caminho como esse para nós fica mais fácil quando temos uma estrutura maior como parâmetro e entendemos o que estamos fazendo e o que precisa ser feito – uma estrutura que pode nos ajudar no caminho, mesmo que as coisas estejam sempre mudando e nossos próximos passos nem sempre sejam evidentes. O conhecimento científico-espiritual pode fornecer parte desta estrutura. A atenção pode complementá-lo.

Uma relação atenta com a integridade de nossa vida – isto é, com as nossas experiências interiores e exteriores – é uma alternativa profundamente positiva e prática ao modo de operação no piloto automático que adotamos tantas vezes sem sequer perceber. Isso é particularmente importante para nós pais, enquanto fazemos malabarismos para tentar atender a todas as exigências do dia-a-dia e trabalhamos para sustentar nossos filhos e lhes dar aquilo de que precisam num mundo cada vez mais desgastante e complexo.

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