Trabalhando com as vontades de uma criança pequena

Por Nancy Blanning em Biblioteca Virtual da Antroposofia – 08/06/2013

Crianças pequenas podem parecer lógicas e razoáveis aos nossos olhos, mas essas não são qualidades intrínsecas de seu modo de ser. Elas vivem seus membros, seu movimento e sua força de vontade.

Quando se quer que uma criança realize uma ação, falar com ele ou ela pode até mesmo congelar a criança, imobilizando-a. Todas as forças da criança sobem à cabeça para formar o pensamento enquanto nada resta para um movimento imediato.

Ajudar a criança a se mover antes de você falar, literalmente, significa pegá-la pela mão ou braço. Se você precisar falar, fale algo como: “é hora de vestir o casaco”, isso como uma afirmação geral ao invés de um comando, e, ao mesmo tempo, ofereça o casaco a ela.

Em vez de argumentar com a criança, tente contar uma estória improvisada sobre uma situação semelhante. É raro termos uma criança que não é cativada instantaneamente por uma estória. Ao contar a estória, literalmente comece um movimento envolvendo os membros da criança (ex. coloque seus braços nas mangas do casaco, dê à criança um bloco para ser guardado em uma cesta e faça o mesmo, para mostrar à criança o que e como quer que ela faça a ação, etc.).

Não faça perguntas à criança, a não ser que ela tenha realmente uma escolha. Por exemplo: quando é hora de ir embora, quantos pais complicam a situação perguntando: “Vamos embora?” em vez de afirmar: “É hora de irmos embora.”

Limite as escolhas que você dá à criança. A menos que ela tenha um senso excepcional para roupas, tipos de comida, etc., as crianças preferem não ter que escolher. Você escolhe as roupas ou coloca um prato de comida na frente da criança e fala: “Aqui está seu almoço”. Pense em uma situação onde você tenha que fazer muitas escolhas, pode ser exaustivo e para uma criança é ainda mais.

Coloque a “forma” antes do tempo. Isso significa separar as roupas uma noite antes, prontas para serem vestidas na manhã seguinte sem a necessidade de decisões – tanto de sua parte como da criança. Lembre-se que você vai preparar o café da manhã sem perguntar o que a família quer.

Lembre que cada responsabilidade adulta que você tira da criança, lhe permite usar sua energia para o crescimento. Nós fazemos um grande favor à criança quando pensamos e planejamos previamente como as coisas acontecerão – criando uma “forma” – que vai sustentar, tanto a criança como nós mesmos, a fim de criar ordem e previsibilidade em nosso dia a dia.

Não estou afirmando aqui que pais são os servos de seus filhos. Como pais, somos guias e professores nos caminhos do mundo. Nós queremos que, dentro do possível, nossos filhos sejam independentes, sabendo se vestir, comer e realizar pequenas tarefas. Mas, precisamos criar um ambiente em que a criança possa ter sucesso, onde seja oferecido a ela um começo, meio e fim e não deixá-la sozinha para tomar decisões.

A imagem da criança como nosso “aprendiz” é muito válida. Em qualquer trabalho ou ofício, é mostrado ao aprendiz como realizar a tarefa desde o primeiro e mais simples passo. Depois disso, a tarefa é feita passo a passo. Cada vez que damos a oportunidade às crianças de terem experiências práticas e concretas de como realizar algo fisicamente, estamos ajudando-as no caminho para se tornarem “artesãos mestres”.

Essas sugestões ajudarão em muitas situações, mas não em todas.

Vai haver tempos de luta. Então, escolha suas lutas. A não ser que você tenha certeza da vitória – não por você, mas pelo melhor da criança – não entre em um conflito de vontades. Isso significa que você precisa estar seguro e onde o fator tempo não existe. O supermercado não é um lugar para lutar.

Antes de traçar as linhas de combate, veja se você pode transformar a tarefa em questão em uma estória, fazendo da tarefa um jogo, ou oferecendo ajuda. “Esses livros estão todos espalhados pelo chão. Eles ficariam mais felizes na prateleira. Aqui está um para você e eu vou ajudar também”. Ou, “Eu aposto que posso arrumar essa pilha de livros mais rápido do que você. Vamos ver?”. Ou, “Eu vou fechar meus olhos e ver se esses livros conseguem pular para a prateleira sem barulho”. Uma estória poderia começar com: “Eu já te contei do grande vendaval que entrou no quarto do ursinho e deixou tudo bagunçado?”.

Se você está lutando com uma criança mais velha, deixe bem claro o que precisa acontecer de uma forma objetiva e lógica. “As roupas sujas precisam ser colocadas no cesto e nós podemos esperar até isso ser feito.” Depois saia. Se seu filho também deixar o lugar da tarefa, guie-o de volta e reafirme o que disse antes. Tente agir com calma e sem acusações ou raiva.

Lembre que você, como pai/mãe, é a autoridade amorosa da criança. Não tenha medo de ter esse papel. Sua orientação vai fortificar e não reprimir a vontade da criança. A criança se sente segura com um adulto carinhoso e confiante que sabe mostrar a ela como o mundo é.

Extraído do livro, “You are not the boss of me!” editado por Ruth Ker
Traduzido por Edelweiss Gysel
Contribuição de Silvia Jensen

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