O amor na prateleira

Por Sander van der Linden em Mente e Cérebro – agosto/2013

Encontros rápidos e aproximações virtuais para arranjar parceiros podem confundir interessados com boas intenções

Uma maneira contemporânea – e pouco convencional – de conhecer possíveis parceiros tem sido experimentada por homens e mulheres empenhados em iniciar um relacionamento amoroso. Durante os “encontros rápidos”, que não duram mais do que poucos minutos, participantes avaliam diversos pretendentes. As decisões, também tomadas rapidamente, com base na impressão inicial causada pelo outro, evocam reflexões sobre como selecionamos nossos companheiros.

Nesse tipo de encontro, que em geral acontece no salão de um bar usado exclusivamente para o evento, as mulheres permanecem sentadas e os homens, em fila indiana, se sentam em frente a elas para alguns instantes de conversa, até que toque um sino ou uma música para lembrá-los de que, como numa espécie de rodízio, é hora de passar para a frente e ceder seu par para outro. Entre um papo e outro, os participantes fazem anotações sobre os possíveis futuros namorados que mais os interessaram. No final, eles indicam os nomes das pessoas que gostariam de ver novamente para os organizadores do evento. Parece simples, mas cada variável no projeto do evento pode afetar os resultados.

Essa modalidade ganhou enorme popularidade, se espalhando para cidades de todo o mundo. Uma empresa de Nova York especializada nesse segmento, por exemplo, promove uma reunião assim quase todos os dias. Em 2011, a empresa de cupons on-line Group On hospedou o maior evento de encontro rápido do mundo, com 414 participantes que lotaram um restaurante em Chicago. A ideia se espalhou e agora, nos Estados Unidos, é cada vez mais comum empresas se reunirem assim com interessados em fazer investimentos e casais grávidos conhecerem candidatas a babás dessa maneira. Até cães desabrigados cortejam potenciais donos usando o formato de encontro rápido.

Há alguns anos, cedi à curiosidade e tentei participar de um encontro desse tipo. Quando a pequena campainha tocava logo após três minutos, muitas vezes eu ainda me encontrava tentando explicar a minha parceira daquele momento o motivo de meu sobrenome (que é holandês) ter quatro sílabas. Resultado: não consegui encontrar o amor da minha vida ali.

Reconheço, cometi alguns erros de iniciante. Mas algo me diz que não sou o único a ter dificuldades com encontros expressos. Mesmo que essa tentativa de se relacionar possa parecer eficiente para apreender várias informações de uma só vez, pesquisas revelam que o contexto em que fazemos uma escolha pesa sobre o resultado dessas decisões e influi na forma como nos relacionamos com suas consequências. Eventos que promovem encontros rápidos, em particular, favorecem um estilo de tomada de decisão que nem sempre pode funcionar a nosso favor. Mas saber como o ambiente influencia a mente – uma qualidade conhecida como racionalidade ecológica – pode nos ajudar a fazer melhores escolhas.

Os encontros tradicionais são casuais e dependem de detalhes aparentemente menores. Por exemplo, você se inscreveu para aula de ioga numa academia e conhece, na lanchonete, uma pessoa que o atrai; frequenta, com seus colegas de trabalho, o mesmo restaurante que o seu futuro amor. Ou mais comum ainda: vocês dois têm amigos em comum e inevitavelmente terminam se aproximando. O problema é que nem sempre estamos dispostos a esperar pelas “coincidências” e pelos “acasos”, se é que eles existem, para iniciar um relacionamento. Além disso, as pessoas que nos parecem bons candidatos a futuros parceiros nem sempre estão disponíveis e igualmente interessadas em nós. Da mesma maneira, nem sempre mantemos sentimentos recíprocos por quem gostaria de nos conhecer melhor.

Por isso, em tempos de virtualidade em alta, aproximações, paqueras e até namoros on-line estão cada vez mais comuns – e muitos deles são reconhecidamente promissores. Mas como não podia deixar de ser, também têm seus inconvenientes. São necessárias horas para peneirar perfis e criar cuidadosos e-mails de apresentação antes de combinar um encontro pessoalmente. Isso sem contar que muitas vezes a aproximação concreta com o escolhido (ou a escolhida) deixa a desejar, quando essa experiência é comparada ao que foi vivido virtualmente. Os encontros rápidos, no entanto, oferecem a oportunidade de conversar com muitos solteiros de forma objetiva – e ao vivo.

Apesar de muita gente ansiar pela diversidade das possibilidades de escolha, pesquisas recentes mostram que, quando se trata de relacionamentos afetivos, tendemos a obter mais sucesso quando o número de opções é menor. Em um estudo de 2011 publicado há poucos meses no periódico científico Biology Letters, o psicólogo Alison P. Lenton, pesquisador da Universidade de Edimburgo, e o economista Marco Francesconi, professor da Universidade de Essex, analisaram mais de 3.700 decisões referentes a relacionamento em 84 eventos de encontros rápidos. Os autores descobriram que, quando as perspectivas variam muito no que diz respeito a atributos como idade, altura, ocupação e escolaridade, as pessoas fazem menos propostas de namoro. O efeito é particularmente forte quando os indivíduos são confrontados com grande quantidade de possíveis parceiros. Além disso, em encontros rápidos em que as características dos participantes são muito variadas, a maioria não chega a, efetivamente, conhecer nenhum dos candidatos.

Pesquisas sobre namoro on-line corroboram essa conclusão. Um estudo realizado em 2008 por Lenton e Barbara Fasolo, da Escola de Londres de Economia e Ciência Política, indica que os participantes muitas vezes subestimam o fato de que o excesso de possibilidades possa afetar seus sentimentos. Curiosamente, candidatos que conheceram muitos potenciais parceiros mais alinhados com o que esperaram não experimentaram maior satisfação emocional do que quando tiveram menos opções.

A pesquisa preliminar de Lenton e Francesconi fornece algumas evidências sobre o motivo de algumas pessoas terem dificuldade em encontros rápidos. Eles descobriram, por exemplo, que quando o número de participantes em um evento desse tipo aumenta, as pessoas têm mais inclinação a seguir orientações inatas, conhecidas como heurísticas, em sua tomada de decisão. Em essência, a heurística é o conjunto de “regras de ouro” que temos arraigadas e nos permitem poupar esforço ignorando algumas informações disponíveis enquanto avaliamos nossas opções. Os pesquisadores descobriram que em situações nas quais o número de participantes é relativamente grande, as pessoas em geral atentam para características mais facilmente acessíveis – como idade, altura e grau de atratividade física, em vez de pistas mais difíceis de observar, como ocupação e grau de escolaridade.

Milhões de anos de experiência com heurísticas diferentes, em vários ambientes, aliados à evolução, que nos permitem adaptações ao longo do “percurso”, levaram nossa espécie a distinguir o que é mais eficaz. Falando de forma bem simplificada, boa aparência e vigor juvenil são realmente métricas úteis para o acasalamento porque revelam sinais de saúde – e indivíduos saudáveis têm mais chance de gerar filhos saudáveis, e propagar a espécie. Entretanto, se o que você procura é o amor da sua vida, há o risco de favorecer seleções estereotipadas – e ver o outro e a si mesmo como uma mercadoria. Ou seja: o problema com encontros rápidos e on-line parece estar na maneira como as pessoas procuram o que querem, identificando o parceiro em potencial como um “produto”.

Considerando essa óptica, própria da sociedade contemporânea, percebemos que artigos de fato são encontrados com uma simples pesquisa dirigida a qualidades objetivas. O modelo search goods (busca de mercadoria) inclui a procura por produtos como detergentes e vitaminas. Outros itens podem ser identificados apenas por meio de interação – experience goods (experiência com o produto) – que engloba filmes e animais de estimação, por exemplo.

Em um estudo publicado em 2008, o psicólogo Dan Ariely, da Universidade Duke, e seus colegas demonstraram que, quando se trata de namoro, as pessoas se enquadram em um tipo específico de experience goods. Os estudiosos pediram a 47 participantes solteiros, homens e mulheres, para listar as qualidades que procuravam em pessoas que considerariam namorar ou casar. Em seguida, avaliadores independentes classificaram as características como “possível de pesquisar” ou “possível de experimentar”. Em ambas as condições, homens e mulheres mencionaram mais traços possíveis de serem experimentados – quase três vezes mais para parceiros que pretendiam namorar e quase cinco vezes mais para pessoas que desejavam se casar.

Ariely e sua equipe argumentam que critérios como “a forma como alguém faz você rir” ou “como o seu parceiro faz você se sentir bem consigo mesmo” são mais difíceis de definir em um perfil on-line do que predileção por gatos, futebol ou bolo de chocolate, por exemplo, o que leva as pessoas a fazerem julgamentos com base em características “pesquisáveis”. Eles observaram que o uso de atributos como peso e altura na hora de escolher um parceiro é semelhante a tentar prever o sabor de um alimento com base em seu teor de fibras e calorias. Um argumento similar poderia ser usado em um encontro rápido, em que a conversa parece se assemelhar mais a uma entrevista do que a uma experiência divertida.

Em seu próximo livro, Lenton, Fasolo e sua equipe resumem a mensagem principal da pesquisa: a escolha de cônjuge, namorada ou namorado está associada com o ambiente social em que a decisão é tomada. Para conservar tempo e esforço mental, julgamos potenciais parceiros comparando-os com outros que encontramos em vez de compará-los com algum ideal cognitivo. Em um estudo desenvolvido por Raymond Fisman, da Universidade Columbia, foi perguntado aos participantes de um evento de encontro rápido o que procuravam em um parceiro em potencial. Posteriormente verificou–se que suas respostas não corresponderam aos perfis de pessoas que consideraram atraentes durante o evento. O que selecionamos depende do que mais está sendo oferecido.

Tornar-se consciente da maleabilidade de nosso gosto e ganhar controle sobre estratégias de tomada de decisão que costumamos utilizar significa agir com “racionalidade ecológica”. Sob certos enfoques, processos psicológicos envolvidos na escolha entre doces e frutas no supermercado e parceiros para se relacionar podem ser bem similares – as diferenças estão no envolvimento e nas consequências de cada situação.

Por isso, se alguém cogita participar de um encontro rápido, o melhor seria evitar conversas estáticas e padronizadas. Perguntar sobre rendimento anual e índice de massa corporal, no final das contas, pode causar sensação de desconforto no interlocutor. Para conseguir informações mais relacionadas a experiências, o melhor mesmo seria contar uma piada ou mencionar casualmente planos de saltar de Bungee Jump no próximo mês, por exemplo, para ver como a pessoa reage. Talvez se eu tivesse sido mais ecologicamente racional há alguns anos, a minha experiência no encontro rápido pudesse ter sido mais bem-sucedida.

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