O que eu estou jogando?

Por Gustavo Gitti em Vida simples – 01/04/2013

Quais joguinhos estamos constantemente sustentando e como eles distorcem a realidade?

Quando sentamos em silêncio ou fazemos TaKeTiNa (técnica que usa o ritmo para transformar corpo e mente), detectamos com mais contraste diversas vozes internas que sempre nos acompanham: “As pessoas estão se mexendo, você está imóvel, parabéns!” ou “Entre logo no ritmo, eles estão tão alegres, não fique excluída!”. Algumas dessas vozes nos atrapalham como um ruído, outras começam a se confundir conosco, como se fossem nós mesmos pensando compulsivamente. Ao descrever e maquiar a realidade, elas nos distanciam do presente e configuram um jogo sutil pelo qual definimos quem somos, quem são os outros, o que é a vida e qual será nossa estratégia de ação. Em vez de apenas nos encontrarmos com os outros, passamos a competir, controlar, exigir, nos irritar, reclamar, nos exibir, culpar, nos rebaixar, tentar agradar… Quando me sinto frustrado com alguém, ou mesmo quando estou aproveitando uma felicidade condicionada com medo de seu fim, às vezes consigo me perguntar: “Qual jogo estou tentando ganhar?”. E toda vez me surpreendo: os sofrimentos nunca vêm da realidade, mas dos meus joguinhos.

À procura de personagens vencedores, seremos sempre insatisfeitos. Toda vitória, por maior que seja, se encerra nos limites do jogo – e é a preparação mais perfeita para a derrota. Enquanto estivermos preocupados com nossos jogos, seremos incapazes de reconhecer outro ser. Por outro lado, se a sensação de fracasso ou sucesso não mais balizar nosso movimento, será fácil criar brincadeiras lúcidas para beneficiar as pessoas, assim como um avô usa o futebol para se aproximar do neto.

Quando relaxamos em alguma prática como TaKeTiNa ou meditação shamatha, aprendemos a soltar o controle dos videogames sutis, a deixar cair nossa fixação a identidades e táticas. Quando essa liberdade fica mais estável, é a partir dela que nos relacionamos: de ser para ser, não tanto de personagem para personagem.

Não estamos acostumados a ser olhados assim, tão diretamente, além dos jogos. Para perceber como convivemos de modo utilitário – enxergando todos a partir de nossos interesses e objetivos -, imagine que loucura seria sair na rua e levantar o braço para alguém esperando que ele imediatamente nos atenda e traga comida; depois observe como isso parece normal dentro da dinâmica de um restaurante. É por isso que é raro uma pessoa não se sentir profundamente tocada pelo olhar e pelo sorriso de grandes seres como o Dalai Lama: eles não jogam, então paramos de jogar.

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