Ouça, apenas ouça

Por Liane Alves em Vida Simples – 01/04/2013

Pode parecer simples, mas ouvir de verdade, prestando atenção no que o outro está falando, não é nada fácil. Esse exercício, aliás, nos torna mais abertos e atentos para viver o agora

Os três estavam ali sentados numa mesinha de bar na calçada, num dia quente. Flagrar três marmanjos sem fazer nada às 4 da tarde de uma quinta-feira numa cidade frenética como São Paulo já me dava vontade de sapecar um beijo em cada um e cumprimentá-los pela ousadia. Mas me detive a tempo e perguntei apenas se eles sabiam onde ficava um estúdio de música perto dali, pois havia esquecido o endereço em casa. Eles foram muito gentis e levantaram várias hipóteses sobre o provável endereço. Eu procurava prestar atenção no que diziam, mas tinha algo que atrapalhava minha escuta. Depois de alguns segundos, descobri. Eram as maritacas que enxameavam na goiabeira em frente ao bar. Se os moços já tinham mexido comigo com seu ócio criativo, ser interrompida por aquela algazarra verde no asfalto duro quase me levou às lágrimas. Sentei-me com eles e pedi uma água gelada com gás.

Sons variados

Foi assim durante todo o tempo em que estive envolvida com esta matéria, que propunha uma escuta mais atenta: a vida, de repente, se abriu como um leque de diversas possibilidades. Com a disposição de prestar mais atenção em sons e palavras, corri para a janela de um apartamento para ouvir melhor o som de uma gaita de foles que tocava na Avenida Angélica. Contemplei um longo solo de jazz na Alameda Santos, seguido por um concerto de flauta. Na Avenida Paulista, que se transforma numa sucessão de 5 quilômetros de música aos domingos, acompanhei os movimentos de um ser andrógino que dançava solitário ao lado de uma caixinha de som que tocava Schubert e joguei algumas moedas para o roqueiro que dedilhava “Stairway to Heaven” sob a marquise de um banco. Mais que isso: aprendi a me calar mais do que normalmente me calo, e a ouvir o som da minha própria voz como se fosse uma melodia. Deixei o silêncio tomar conta sem interrompê-lo. Abdiquei de expressar todas minhas opiniões. Não só minha existência ficou mais criativa, intensa e vibrante, como percebi que, à medida que me tornava mais atenta à escuta, fazia outras escolhas, decidia outras coisas, que talvez nunca tivessem me passado pela cabeça, como experimentar a delícia de me sentar debaixo de uma goiabeira cheia de maritacas numa morna quinta-feira.

Voltar-se para dentro

Pode parecer misterioso, ou mágico, perceber como sua vida muda com um escutar mais profundo. Mas isso se dá por um motivo simples. Enquanto toda a sociedade moderna nos impulsiona a agir e a fazer, a escuta está envolvida justamente com o movimento contrário, que é permanecer em calma e silêncio numa não ação. Em vez de sermos ativos, por um momento vamos nos tornar conscientemente passivos. Em vez de se ir para fora, vai-se para dentro. Em vez de nos expressarmos, vamos ouvir o que o outro diz. E nesse processo ficamos muitas vezes sem responder, sem retrucar imediatamente. Nos tornamos menos mecânicos e reativos.

Essa simples mudança de atitude gera resultados grandiosos. Cada vez que a escuta se repete, sem interrupções, você se torna mais relaxado, mais aberto, mais atencioso, mais profundo, mais humano. E isso realmente pode transformar uma vida.

“O controle da fala revela muito sobre você mesmo”, me diz com sua voz doce e melodiosa Lu Horta, cantora, compositora e professora de canto paulista que ensina as pessoas a… escutar. Seu trabalho é mais com músicos e cantores, mas inclui gente comum também. Formada em música pela Unicamp, com especialização em cantoterapia segundo a concepção antroposófica e com outros cursos nessa área, Lu lembra como nossa vida emocional está ligada à fala e à escuta. Quem é ansioso demais vai sempre interromper o outro, e o timbre de sua voz e sua respiração traduzirão a ansiedade. Quem é egocêntrico não deixará espaço para que a pessoa à sua frente possa falar. “Se eu estiver centrado apenas em meus interesses, não conseguirei me abrir para o que está além de mim”, diz ela com dedução irrepreensível. Escutando mal, nos tornamos restritos, limitados, impacientes. Mas quem começa a se dedicar a ouvir com mais atenção experimenta o prazer de ser mais calmo, acolhedor, aberto e generoso.

“A escuta mais atenta abre espaço interno para que o outro é e deseja”, diz Lu. É ar puro que entra, uma janela aberta. Por um momento saímos de nós mesmos, de nossos interesses e opiniões, de nosso mundo, para conhecer a outra pessoa e escutá-la como quem bebe um copo de raro vinho. É um dos grandes presentes que se pode dar para alguém. E um dos dons mais preciosos que se pode receber do outro. Dos 12 sentidos imaginados pelo austríaco Rudolf Steiner, o criador da antroposofia, a audição pertence ao grupo mais elevado deles, o que tem estreita relação com a alma, o pensamento e a consciência.

Lu Horta lembra algo muito importante: “O primeiro órgão dos sentidos a se formar no bebê é o ouvido. Escutar é uma de nossas primeiras experiências no mundo: ouvimos a corrente sanguínea da mãe, sua voz, nosso batimento cardíaco. E tudo isso nos acalma profundamente”. Tanto que hoje existem no mercado CDs que reproduzem esses sons para os recém-nascidos. “Ouvir é extremamente prazeroso para o ser humano.”

Mas o que acontece, então? Por que não gostamos mais de escutar? Há muitas respostas, mas uma delas está ligada à falta de um aprendizado específico para isso. O silêncio sumiu de nossas vidas, e é nele que habita a escuta. Como podemos voltar a nos alimentar e a nos preencher do que não quer falar, do que quer permanecer quieto e tranquilo, do que nos deixa confortáveis e relaxados dentro de nós? É o que vamos ver a seguir.

Silêncio, por favor

“Sábio é aquele que saboreia”, disse o filósofo alemão Friedrich Nietzsche. E degustar o silêncio requer certo aprendizado, uma atenção específica. É um refinamento. “É do silêncio que nasce o ouvir. Só posso ouvir as palavras se meus ruídos interiores forem silenciados. Quem fala muito não ouve. Só posso ouvir a verdade do outro se eu parar de tagarelar. Sabem disso os poetas, esses seres de fala mínima”, escreveu o psicanalista e pedagogo Rubem Alves no livro Educação dos Sentidos (Verus). E por que a escuta da poesia, ou da música, precisa tanto do silêncio? Ele responde: “A magia do poema está nos interstícios silenciosos que há entre as palavras. É nesse silêncio que se ouve a melodia que não havia. Aí a magia acontece: a melodia nos faz chorar”.

Rubem nos conta uma cena que aconteceu durante a leitura que ele fez de uma poesia de Robert Frost em sala de aula. “Li vagarosamente. Porque cada poema tem seu andamento que lhe é próprio, como numa música”. Terminada a leitura, não me atrevi a dizer nada. É preciso que haja silêncio. A música só existe sobre um fundo de silêncio. É no silêncio que a beleza coloca seus ovos.” Depois dessa pausa, ele recomeça a ler novamente as palavras de Frost. “E aí, então, no silêncio que se seguiu à segunda leitura, ouvi um soluço no fundo da sala. Uma jovem chorava.” Abriu-se o espaço para uma escuta profunda que atingiu diretamente seu coração. Não foram apenas palavras, mas o vazio que as continha que despertou o sentimento. “Grande mistério, esse: é o que não há que provoca o choro”. Houve silêncio suficiente para que a escuta se tornasse avassaladora.

Tampouco o sentimento da jovem surgiu da interpretação das palavras. Naquele poema que falava de bosques e sombras, foi sua atmosfera melancólica e triste que tocou sua alma. Ela fugiu de atribuir significados ao que ouvia de acordo com suas opiniões e vivências. Apenas se sentiu livre para sentir, sem julgar e interpretar interiormente. Ficou com o impacto da impressão pura. “O intérprete é um ser luminoso. Não suporta sombras. Ele traz então suas lanternas, suas ideias claras e distintas, e trata de iluminar os bosques sombrios… Não percebe que, ao iluminar os bosques, deles fogem as criaturas encantadas que habitam as sombras”, disse Rubem.

“Parece que existem em nós cantos sombrios que toleram apenas uma luz bruxuleante”, lembra o pensador belga Gaston Bachelard numa imagem magnífica. Esses lugares só podem ser visitados no silêncio e na penumbra. Se estamos diante do outro com a avidez de um cão faminto pronto a saltar sobre um osso, só esperando a deixa para interrompê-lo e começar a interpretar o que ele diz, nós os perderemos. A resposta, a interpretação, pode acontecer durante a conversa depois dessa degustação de escuta mais fina. E, aí, o que teremos a dizer terá outro sabor e profundidade.

Com esse tipo de escuta também aprenderemos a diferenciar os diversos tons do silêncio, como os esquimós reconhecem mais de 40 tons de branco da neve. “Os silêncios têm sua própria personalidade – contidos ou meditativos, vazios ou repletos. Há um campo de força completamente diferente entre um casal que emudece porque está com raiva ou um casal silente que está fazendo amor. Também há diferença entre o silêncio gerado por dezenas de pessoas fazendo meditação ou depois de uma comunhão numa missa e o silêncio natural de um espaço vazio”, afirma a jornalista escocesa Bella Bathurst, da revista virtual Aeon Magazine.

Ao conseguir perceber pausas, hesitações, mudanças de timbre na voz ou alteração da respiração de quem está diante de nós, teremos uma leitura mais rica, ou até completamente diferente, do que dizem as palavras. No mínimo, poderemos dar um retorno mais apurado e preciso do que se percebeu.

Ouvir, sem julgamentos

Há quem já pensou profundamente sobre o escutar. O famoso físico de teoria quântica David Bohm dedicou os últimos anos de sua vida a um processo terapêutico chamado de Diálogo. Nele, o ouvinte não julga o que escuta. Apenas fica tranquilo, autopercebendo-se diante do que é dito, assistindo às eventuais zonas de sombras que o outro pode deflagrar. Também presta mais atenção não apenas no que é dito, mas naquilo que é expresso nas entrelinhas, percebendo no outro o que talvez ele não perceba. É uma escuta atenta. De certa forma, sua proposta é como uma meditação, e por isso o filósofo indiano Jiddhu Krishnamurti se interessou tanto por esse processo (os dois trabalharam juntos durante anos).

Bohm acreditava que o processo do pensamento era autônomo e independente de nós e que podíamos observá-lo de fora de um ponto interno que nos permitisse ver a nós mesmos. Também sustentava que o pensamento não estava restrito ao indivíduo, mas que existia um pensamento coletivo que interagia com o individual. No processo do Diálogo, por exemplo, até 50 pessoas se sentam para conversar e escutar sem julgamentos durante cerca de duas horas. De acordo com o físico, o pensamento coletivo gerado nas sessões também pode fazer surgir compreensões a que muitas vezes não se chegaria individualmente.

Diálogo interno

Estamos eternamente em diálogo, num bate-papo infinito com nós mesmos, que alguns também chamam de monólogo interno. É a mente do “macaco louco”, na expressão de Yongey Mingyur Rinpoche, monge do budismo tibetano e autor do livro Alegria de Viver. Ela é agitada, inquieta, pula de um assunto a outro sem parar, de galho em galho. “O diálogo interno também pode ser descrito como ‘pensamento compulsivo’. É um estado em que nossos pensamentos nos comandam, repetindo a si mesmos centenas de vezes sem nunca conseguir chegar a outro patamar”, diz Reinhard Fletischler, percussionista austríaco que pesquisou durante anos temas como ritmo e silêncio em vários países do mundo. Para nos livrar dessa mente conturbada, ele oferece uma alternativa: “Saindo conscientemente do pensar para um espaço mais sensorial, para o sentir, nós podemos romper o círculo vicioso e trazer um espaço interno que nos permite abrir e nos afastarmos desse tipo de pensamento”.

“Ao sentir mais o corpo de uma forma relaxada, seremos capazes de entrar nesse estado silencioso em que muitas coisas de nossa vida se revelam por si mesmas”, afirma Fletischler. “Reconhecer que estamos num estado de pensamento compulsivo e praticar a transição para um sentir meditativo é a chave de um diálogo interno com mais significado.”

E ele vai além. Propõe não a polaridade do cheio versus vazio, mas a vivência de ambos estados ao mesmo tempo. “Viver em polaridades pode trazer uma constante dicotomia: agir ou escutar, fazer ou não fazer”, diz ele. Para vivenciar essas possibilidades ao mesmo tempo, ele criou um método, a TaKeTiNa, em que pessoas em roda dançam, cantam e se abrem para o poder transformador do ritmo. “Ali você fala sílabas ritmícas enquanto escuta o líder contar histórias. Aprende a ser ativo com sua mão direita e passivo com a esquerda ao mesmo tempo. Fica ao mesmo tempo focado e relaxado”, conta Fletischler.

É algo que também pode ser encontrado em algumas artes marciais, na dança e, é claro, na meditação. Mas também na observação e comunhão com a natureza. O maestro Antônio Carlos Jobim costumava sair de manhã com sua flauta transversal e rumar para as matas perto de sua casa. Ia para lá a fim de ouvir e ao mesmo tempo tocar com os passarinhos. Era seu exercício quase diário de meditação. Ouvia uma sabiá, entrava em comunhão com ela e lhe respondia na mesma malha sonora em sua flauta. Escutava um bem-te-vizinho-de-penacho-vermelho e formava com ele outra parceria, e assim por diante. Só depois voltava para casa para criar suas composições. Escutar é criativo, transformador e revolucionário.

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