A sutileza dos sinais

Por EUGÊNIO MUSSAK em Vida Simples – 01/07/2013

Às vezes não nos damos conta, mas os sinais de que algo não vai bem estão ‘piscando’ na nossa frente.

– Ele vai morrer logo. Já tem o 11. Essa frase estranha foi dita por um mendigo a respeito de outro em um filme do comediante e diretor Mel Brooks, em que ele faz papel de um milionário que, por causa de uma aposta, passa alguns dias em um gueto pobre de Nova York.

Quando recebeu um pedido de explicação sobre o que ele queria dizer, o mendigo esclareceu:

– Quando o 11 aparece atrás do pescoço, a morte está chegando – e disse isso enquanto apontava para a nuca de outro mendigo, a quem se referia: um velho magro e curvado. O que se via eram dois tendões salientes, provavelmente expostos pela magreza, e que lembravam, com um pouco de boa vontade, o número 11.

A cena, que no contexto do filme fica engraçada, acaba se referindo a uma característica das pessoas muito observadoras que acumulam experiência, algo que só o tempo nos dá. Me fez lembrar de uma enfermeira que conheci. Era uma mulher dedicada, que já acumulava umas duas décadas de trabalho. Ela afirmava saber, com antecedência, que paciente iria evoluir mais rápido, quem iria ficar bom e até quem iria morrer. Quando lhe pedi detalhes, ela se limitou a dizer: Não sei explicar, mas alguma coisa me diz tudo a respeito de cada paciente.

Essa “alguma coisa” a que a enfermeira se referiu nada mais é do que sua imensa experiência, que lhe permite ler sinais tão pequenos que nem ela se dá conta. Em medicina, usa-se a palavra “pródromo” para designar os sintomas muito delicados que costumam aparecer antes dos sintomas principais de uma doença. A palavra vem do grego prodromos, que pode ser traduzida por precursor, o que vem antes de alguma coisa.

Com certeza você vai lembrar de um dia em que anunciou que estava pegando uma gripe antes de ter um sintoma claro, como a febre. Isso por conta de um forte arrepio.

O arrepio é um pródromo da gripe, uma espécie de sintoma do sintoma. Não há febre, dor, fraqueza ou mal estar, os sinais clássicos da gripe. Mas já “pressente” a dita cuja. O arrepio foi suficiente para dar certeza de que uma semana miserável estava por vir. Não deu outra. Afinal você se conhece como ninguém, não é?


Os arrepios da vida

Pois parece que prestar atenção nesses detalhes capazes de servir como fonte de informação segura sobre o que está por vir é uma tendência em muitas áreas, como a meteorologia, a bolsa de valores, as ações antiterrorismo e até o estado de um casamento.

Qualquer área está sujeita a mudanças súbitas, para as quais em geral não estamos preparados. Quem consegue prevê-las ganha uma imensa vantagem sobre os demais. E isso não tem nada de místico. Prever com base na observação de pequenos detalhes pode fazer uma imensa diferença.

Gente muito boa está trabalhando para ajudar governos, indústrias, cientistas a prever o que tem mais chance de acontecer em um cenário complexo. “Além de conhecer a estatística, é só observar os sinais delicados”, dizem os especialistas.

O que você deve esperar de seu namoro? Será que engrena de vez? Qual a chance de acontecer aquela promoção na empresa? Seu time está com cara de que vai ser campeão ou vai para a lanterna do campeonato? E o projeto de uma longa viagem? Vale a pena continuar sonhando ou é melhor deixar para outra época?

Todos temos dúvidas desse tipo, e não sabemos como responder a esses questionamentos que nos fazemos. Em geral vamos deixando acontecer, até que os caminhos se mostrem mais claros, então tomamos as providências, se ainda der tempo. E, quando algo que queríamos muito não acontece, nos penitenciamos por não termos “percebido antes”.

– Que burra que eu fui – me disse uma amiga que terminou um noivado de oito anos – estava diante de meus olhos que não ia dar certo, mas eu resistia em ver a verdade.

Isso é normal, querida. Em geral vemos primeiro aquilo que desejamos ver, e deixamos a realidade como ela é para mais tarde. É mais fácil percebermos os sinais prazerosos, que vão ao encontro dos desejos mais íntimos. Adoramos cometer doces enganos, ainda que mais tarde tenhamos de amargar o sabor da verdade.

Você não sabe em que momento terminar um namoro encalhado? Está em dúvida se deve continuar naquele emprego ou mudar o rumo de sua vida? Então relaxe, você não é o único nessa situação. Tem muito líder empresarial, por exemplo, com dilemas semelhantes, só que, neste caso, eles interferem na geração de caixa.

Sorte que existe ciência para ajudar. O matemático Marten Scheffer, da Universidade de Wageningen, na Holanda, percebeu essa dificuldade das pessoas em tomarem decisões, e começou a estudar o assunto. O resultado foi uma pesquisa que mostra que, em qualquer sistema dinâmico complexo (a economia de um país, o resultado de uma empresa e até seu namoro se encaixam nessa categoria), é possível prever quando as mudanças estão prestes a acontecer, e, dessa maneira, controlá-las ou até mesmo apressá-las, se for o caso.

A freada crítica

Segundo o professor holandês, há sinais universais que podem ser usados, com precisão, para indicar se um sistema está estável ou não, e qual é o grau de sua robustez. Se há uma mudança brusca no horizonte, é possível prever. Basta que se observem esses sinais. O problema é que, em geral, eles são sutis e quase imperceptíveis.

O principal sinal é o aparecimento do que ele chamou de “freada crítica”, que nada mais é do que um conjunto de acontecimentos repetitivos, sendo o mais importante deles a lentidão com que o sistema passa a reagir às pequenas perturbações, como se elas já fossem normais e aceitáveis.

Observe um casamento meio falido (todos conhecemos um). O casal parece não se importar mais com os pequenos comportamentos, aqueles detalhes que são tão importantes para engrandecer as relações. Não há mais olhares cúmplices nem manifestações de carinho. As conversas são mantidas em tom protocolar e com certa aspereza. Desapareceu o encanto.

Além disso, parece que a paciência chegou ao limite. Qualquer coisa é motivo para uma discussão. É óbvio que essa relação está em uma freada crítica, só que parece que as pessoas envolvidas (o casal) não percebem.

Se eles percebessem, fariam algo, pois essa situação não faz ninguém feliz. E esse algo tem duas possibilidades: ou tem início uma mudança de atitude, ou acaba de vez.

Esse casamento já tem vários pródromos de morte que não estão sendo percebidos, e logo chegarão os sintomas mais graves, que poderiam ser evitados com o simples exercício da percepção delicada.

Scheffer afirma que a detecção dos sinais finos que antecedem uma mudança brusca é a melhor saída para evitar as catástrofes e manter o sistema sob controle. A dúvida é: será que é possível “treinar” a mente para perceber esses sinais?

Essa é a notícia boa, pois tudo indica que sim, que podemos melhorar nossa percepção fina. Basta querer, e começar a treinar. No fim, tudo está ligado com a prática, e esta depende do uso e do tempo. E da vontade.

É provável que a palavra que encerra o parágrafo anterior seja a mais importante: vontade. Definida como uma espécie de desejo intencional, provocado pela consciência, que consultou a lógica e os valores, a vontade é a maior força que alguém pode carregar. É a vontade, e não outra coisa, que move o mundo, cria novas realidades. Infelizmente é um produto meio escasso. O que se vê são pessoas acomodadas em situações pequenas, sem ação, sem vontade.

É a força da vontade que pode estimular as pessoas a melhorarem sua performance como “observadores delicados”, que percebem nuances, pequenas variações, entrelinhas, pequenos detalhes. Experimente.
A percepção fina aprimora as relações, previne problemas, promove mudanças adequadas, posicionamentos mais firmes, cria situações agradáveis. Então por que não exercitá-la? Afinal, como disse o (cantor) Roberto, “Detalhes tão pequenos são coisas muito grandes para esquecer”, e ninguém esquece sua música.

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