Educar é libertar

Por Eugenio Mussak em Vida Simples – 01/09/2013

A Educação é importante para a conquista da liberdade, que nos conecta com a gente mesmo e com o mundo.

Era 1965, eu era um adolescente e achava que já sabia das coisas e que podia mandar em meu próprio nariz. Hoje, tudo o que sei é que nada disso é verdade, em nenhuma idade. Tudo bem, leva-se tempo para conquistar um mínimo de sabedoria…

Mas quero fazer justiça àquele adolescente que fui: ele, pelo menos, estava procurando algo. Era curioso e inquieto. Preferia a sensação de errar por ter tentado do que a de manter-se seguro na imobilidade. Essa postura me custou muito, mas também me valeu muito. Se eu pudesse voltar atrás, eu gostaria de ter errado ainda mais, por ter tentado muito mais.

Talvez por ter esse espírito, lembro de ter sido um dos primeiros a comprar um ingresso para uma peça de teatro de que tanto se falava, e que seria apresentada no pequeno auditório do teatro Guaíra, em Curitiba, minha cidade. O nome da peça era engraçado: Liberdade, liberdade. Tinha sido escrita por um tal de Millor Fernandes, era dirigida por Flávio Rangel e interpretada, entre outros, por Paulo Autran. Pois foram esses tais indivíduos que ajudaram a marcar em minha alma o valor da liberdade.

Eu podia ser só um menino meio confuso, mas já compreendia que algo de errado estava acontecendo. Os militares haviam retirado o presidente João Goulart e colocado um general em seu lugar. A censura da imprensa, o AI5, o fechamento do Congresso vieram depois, dando à História o direito de chamar aquele período de ditadura. De fato, a melhor maneira de qualificar um regime de ditatorial é identificar nele o desrespeito ao valor que é, ao mesmo tempo, grandioso e elementar: a liberdade.

Tivemos, claro, a chance de viver um tempo em que o embate entre a liberdade e a opressão, a censura e o autoritarismo estava escancarado, o que transformou o valor da liberdade em uma bandeira a ser defendida. E a maneira mais inteligente e resolutiva, a meu ver, eram as manifestações artísticas. Os filmes que mais me marcaram foram aqueles em que a liberdade era um protagonista: Easy Rider, com Peter Fonda e Jack Nicholson, Fugindo do Inferno, com Steve McQueen, Os Aventureiros, com Alain Delon e Lino Ventura, entre tantos.

O tempo passou, viro professor e, com a experiência, vou adotando um slogan particular que eu repetia internamente cada vez que pensava em desistir: “Educar é libertar”. A ideia da liberdade como valor fundamental me acompanhou sempre, e foi acrescida da certeza de que o caminho mais nobre para alcançá- la é a educação, pois ela libera o homem da pior das prisões, a ignorância.

Por tudo isso, fiquei muito feliz e honrado por ter sido convidado a falar em um espaço da flip 2013, chamado Casa da Liberdade, ao lado de pessoas ilustres, como Carlos Ayres Britto, Guilherme Fiuza, Gustavo Franco, Ricardo Cota e Marcos Troyjo.

De um pequeno palco em meio a um jardim coberto, comecei a falar, agradeci, e contei que me haviam solicitado que abordasse o tema da liberdade sob a ótica da educação. Para mim, era tão fácil que não sabia nem como começar. Ironia da retórica. E disse que falaria sobre o tema em três tópicos: a orientação da liberdade enquanto objeto, a preparação para a liberdade enquanto potência e a gestão da liberdade enquanto responsabilidade. Pode parecer difícil, mas não é. Vejamos.

A orientação da liberdade

Essa é do psicanalista alemão Erich Fromm: há dois tipos de liberdade, a “liberdade de” e a “liberdade para”. Qual você defende? Eu prefiro a “liberdade para”. A “liberdade de” prega o desapego, a ausência de amarras. A “liberdade para” olha em direção ao futuro, está conectada aos sonhos, às realizações. Em geral, os dois tipos estão associados, mas não necessariamente. Eu posso dizer que estou “livre de” trabalhar com horários, por isso estou “livre para” viajar ou pensar em novos projetos. Neste caso, o “de” permite que o “para” exista. Só que nem sempre é assim.

A relação a dois é um bom exemplo disso. Tenho experiência nesse assunto, pois durante muito tempo preferi não ter vínculos, manter-me sem compromissos sérios, com relações passageiras. Eu dizia que queria “sentir-me livre”. Livre? Será essa a melhor estratégia para alcançar a liberdade? Pode ser, mas apenas a “liberdade de”. Não manter uma relação fixa equivale a não estar apegado a ninguém. É estar livre de amarras. Mas e a “liberdade para”, que, no fundo, é a mais importante?

Só depois que o destino colocou em minha vida uma companheira é que eu percebi que a “liberdade para” é muito mais significativa, pois é ela que me permite escolher os caminhos, criar as possibilidades, viver a vida com intensidade. Só quem tem uma boa relação tem a liberdade verdadeira. Este é apenas um exemplo, mas há outros, observe. Muitas vezes a verdadeira liberdade vem quando aceitamos tarefas e assumimos grandes responsabilidades. Trata-se da plataforma para o futuro. Ficar anos atrelado a uma escola pode parecer uma prisão. Não é. É o passaporte para uma vida mais autônoma, livre. Pense nisso. O que interessa é a “liberdade para”. É para ela que devemos orientar nossos pensamentos.

A conquista da liberdade

O filme Fugindo do Inferno trata do plano de fuga de prisioneiros aliados de um campo de concentração nazista. A parte que trata da fuga em si é a parte menor do filme. A conquista da liberdade, para aqueles homens, passaria por um período de análise, planejamento, desenvolvimento de competências e recursos. Trata-se de uma interessante metáfora. A liberdade se conquista. Você pode até viver em um ambiente de liberdade, mas, se depender de outros para viver ou tomar decisões, não será livre.

E, como disse no começo deste texto, acredito que a educação é o grande passaporte. Por isso tenho muito apreço pelas ideias do Jacques Delors, educador francês que trabalhou para a Unesco, buscando um modelo novo de educação para o século 21. Um modelo libertador. Sua proposta pode ser aprofundada em seu relatório, que virou um livro chamado Educação: um tesouro a descobrir. Sua proposta é a de que educar é ensinar a aprender, e não ensinar matérias, simplesmente.

Ensinar a aprender é dar a liberdade para a escolha dos caminhos por meio de uma potência da aprendizagem permanente. E o Delors disse mais. Disse que o aluno tinha de desenvolver a capacidade de aprender, sim, mas que há quatro aprenderes fundamentais: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser. Esta é a educação verdadeiramente libertadora. A que ensina a pescar.

Liberdade é responsabilidade. Ser responsável significa responder por nossos atos. Escolher os caminhos e assumir as consequências. Quem é o responsável pela construção da história de cada um de nós? Para simplificar, vamos imaginar três modelos.

Há quem se considera vítima do destino, da época e do local onde nasceu e cresceu. “Esta é a vida que me foi dada viver” – dizem estes, que são chamados de “deterministas”. É claro que há situações extremas, locais injustos, ditaduras, segregações. Tirando isso, não há necessidade que nos sintamos prisioneiros de um destino.

Há quem se considera acima desses limites do mundo e acredita que pode qualquer coisa. “Eu mando em meu destino”, alegam os chamados de “possibilistas”, que por assim pensarem extrapolam os limites.

“Eu sei onde quero chegar e vou me organizar para isso”. Este é o slogan dos “estrategistas”, os que acreditam em seu potencial e usam os recursos ao seu dispor. São os que mais usufruem da liberdade, pois se prepararam para ela e assumem a responsabilidade pela conquista.

A FLIP deste ano homenageou Graciliano Ramos. Enquanto esperava minha vez de falar, folheava um livro de textos inéditos do autor quando parei em um de seus artigos, dedicado a este tema. “Precisamos projetar na treva que há na alma do analfabeto o clarão radioso que vem do livro!”, diz Graciliano. Não poderia ter havido melhor acaso. Com essa leitura terminei minha fala. E termino este artigo, que é só o começo de uma reflexão. E viva a liberdade.

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