A arte de fazer boas escolhas

Por Yuri Vasconcelos em Vida Simples – 25/06/2007

Nunca foi tão difícil para a humanidade saber o que quer, fazer boas escolhas e ser feliz

Se você tem a sensação de que o mundo está complexo demais para saber o que quer em meio a tanta informação, acertou. Atualmente há tantas opções à nossa disposição, que é como se vivêssemos de encruzilhada em encruzilhada, tendo que escolher o tempo todo. No lugar de facilitar as escolhas, essa diversidade de possibilidades acaba dificultando e imobilizando as pessoas. “O momento que estamos vivendo é demasiadamente complexo e é ele que torna tão difícil saber o que queremos e o que nos satisfaz”, afirma Lia Diskin, diretora da Associação Palas Athena, de São Paulo, que desenvolve programas filosóficos, culturais e socioeducativos.

A escolha é o grande problema da humanidade hoje, dizem os psicanalistas. “Mais do que nunca, somos obrigados a optar”, afirma o psiquiatra Jorge Forbes, presidente do Instituto da Psicanálise Lacaniana, em São Paulo, e autor do livro Você Quer o que Deseja?.

De quem é a vontade?

O primeiro passo para descobrirmos o que queremos é entendermos que todo ser humano carrega dentro de si um conflito de interesses, uma verdadeira guerra de desejos. De um lado desse combate estão as coisas que você quer mesmo, seus desejos verdadeiros, aqueles que, quando satisfeitos, levam a um estado de espírito conhecido por felicidade. Do outro, estão as coisas que os outros querem para você. Sim, os outros.

E por que a gente aceita que os pais, os amigos e a sociedade decidam o que queremos? Basicamente, porque precisamos ser reconhecidos e aceitos pelas pessoas que são importantes para nós, desde os pais até o chefe. “Enquanto seguimos o comportamento que a sociedade espera da gente, fazemos parte do grupo. Ao escolher outro caminho, tememos ser abandonados e considerados diferentes”, afirma a terapeuta junguiana. É isso que faz com que tanta gente tenha medo de tomar uma decisão que contrarie a maioria e o padrão social.

Necessidades universais

Mas, afinal, quais são os desejos verdadeiros? Há 25 séculos, o filósofo grego Platão acreditava que todo mundo era movido por uma mesma vontade universal. “Ele partia do pressuposto que todos têm um mesmo objeto em mente e esse objeto é algo que todos querem igual, muito embora nem todos ou ninguém consiga alcançá-lo. Os gregos chamavam isso de agatos, que quer dizer perfeição, excelência ou querer o bem”, afirma Carlos Matheus, professor de filosofia da PUC de São Paulo.

Para uma corrente da psicologia, os desejos genuínos nascem de necessidades universais. Tem gente que chegou inclusive a enumerar e listar essas necessidades básicas, como o economista chileno Manfred Max Neef, ganhador do Prêmio Nobel na área de economia alternativa na década passada. Para ele, a humanidade tem nada mais nada menos que nove necessidades básicas: afeto, liberdade, subsistência, compreensão, participação, criação, identidade, proteção e ócio. Para o economista, essas carências estão na raiz dos nossos desejos e a satisfação delas seria um grande passo para se atingir a tão sonhada felicidade.

O desejo verdadeiro

Seja qual for a origem dos desejos autênticos, o caminho para conhecê-los é um só: autoconhecimento. Afinal, se não nos conhecermos, como podemos saber o que é mais importante para nós mesmos? Como uma boa junguiana, a terapeuta Denise Ramos dá uma explicação para descobrirmos o que queremos. “O verdadeiro querer”, diz ela, “está associado às realizações pessoais, à expansão do próprio ser e ao desenvolvimento de todo nosso potencial. É isso que leva à felicidade. Ela, a felicidade, não está nos quereres ilusórios, condicionados ou artificiais, mas no contato consigo mesmo. É nesse contato que descobrimos o que nos torna feliz”.

Uma dica dos especialistas para saber o que realmente desejamos é, primeiro, conhecer aquilo que não queremos. “Limitar o espectro de escolhas é um recurso muito válido quando se tem um amplo repertório de oportunidades”, afirma Lia Diskin, da Associação Palas Athena. Às vezes, só dá para saber o que se quer experimentando, mesmo. Mas nem todas as decisões na vida podem ser testadas antes. Não há outra forma de saber como é ser mãe, senão tendo um filho, para o resto da vida.

Mas é possível treinar a capacidade de escolha com pequenas opções que nos permitem arrepender-nos. Atentos ao que sentimos antes, durante e depois de cada escolha, afiamos o ouvido para o que diz o coração. E quando a decisão da vida aparecer, será muito mais fácil ouvi-lo e escolher.

A decisão final

Ok, ok. Depois de todo esse processo, a felicidade está garantida? Ainda não. Saber o que se quer não é suficiente para que alguém viva de acordo com os próprios desejos. E o culpado disso é o medo, o medo de abrir mão das opções. Enquanto não escolhemos, todas as opções ficam à disposição. Por outro lado, não podemos usufruir nenhuma delas.

É um fato da vida: toda decisão implica perdas. Afinal, escolher uma coisa significa abrir mão das outras, pelo menos naquele instante. “E a escolha nos angustia porque temos receio de escolher errado e perder a oportunidade de escolher bem”, escreve o psiquiatra Jorge Forbes em seu livro. “O estresse nada mais é do que a consequência do medo de decidir”.

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