O fator sorte

Por Gláucia Leal em Blog do Estadão – 12/09/2014

O que o conhecimento sobre o funcionamento mental nos revela sobre lei de Murphy, “privilégios” concedidos pelo destino, azar e necessidade de manter tudo sob controle

Tem gente que parece mesmo ter nascido com o bumbum virado para a lua. Pelo menos olhando de longe, temos a impressão de que as coisas correm sempre bem para essas pessoas, seus caminhos se abrem e os raros obstáculos se dissolvem. Claro que estão embutidas nessa percepção muitas de nossas próprias projeções e da impossibilidade (óbvia, mas tantas vezes desconsiderada) de ser muito difícil avaliar com precisão o que se passa com o outro. Paralelamente, deixando de lado o terreno insondável dos destinos, carmas, presságios e bruxarias em geral – a respeito dos quais, aliás, não tenho nada contra, só me falta competência para escrever a respeito – podemos pensar sobre o que a psicologia tem a dizer sobre a sorte.

Por trás da convicção de que o mundo se divide entre sortudos e azarados há o desejo de manter sob controle as situações que nos inquietam. E não é de hoje que buscamos alguma forma de fugir da angústia. Esse movimento, tão compreensível, não é exclusividade de alguma época ou geografia. Um fenômeno curioso, que se tornou conhecido como “culto à carga”, mostra essa necessidade de “atrair a sorte” por meio de determinadas ações. Observado em sociedades tribais quando entram em contato com a civilização industrializada, o primeiro caso de que se tem registro foi o movimento nas ilhas Fiji, em 1885, mas ocorreram vários outros, inclusive na Amazônia. Foi constatado quando nativos observavam grupos ocidentais, geralmente militares, recebendo suprimentos – alimentos, medicamentos, cobertores etc. – por barcos e aviões. Sem compreender a origem dessa remessa tão bem-vinda, os nativos acabam atribuindo sua chegada a causas sobrenaturais. Muitas vezes, os grupos imitam ritualisticamente a forma de andar e se vestir de pessoas provenientes de culturas industrializadas na esperança de também receber o benefício. Há registro de grupos que abriram clareiras na selva imitando aeroportos e construindo rádios, fones de ouvido e até falsos aviões de madeira que serviriam como isca para atrair a atenção das “entidades doadoras”.

A lógica é pautada pelo pensamento mágico, um funcionamento psíquico descrito por Sigmund Freud em Totem e Tabu, de 1913. Ele associa essa forma de relacionar-se com o mundo ao desenvolvimento da humanidade e, embora seja típica das crianças (que, egocentradas, acreditam ter o poder de realizar algo apenas porque o desejam) esse raciocínio encontra-se bastante presente entre adultos nos dias de hoje, preservado, por exemplo, nas crenças e superstições que acreditamos atrair ou afastar a sorte. Esbarramos aí no que Freud chamou de onipotência infantil de pensamentos, um “resto” da forma primitiva de pensar.

Esse funcionamento é compreensível, já que recorremos ao desconhecido para atrair coisas boas para nossa vida – e, assim, mitigar vulnerabilidade inexorável – é bastante válida. Mas não se esgota. Sabe aquela máxima “quem procura acha”? Pois é. As pessoas mais inclinadas a buscar significados nos acontecimentos tendem de fato a encontrá-los, ainda que, para isso, tenham de subestimar as leis da probabilidade, no intuito de encontrar um maior número de “coincidências”, que atribuem à sorte. E não há problemas específicos em relação a essa atitude, desde que não se caia no exagero.

Há alguns anos, o físico Richard A. J. Matthews estudou as chamadas leis de Murphy, a irônica suma do pessimismo resumida na máxima “se alguma coisa pode dar errado, dará”. Matthews investigou, em particular, por que uma fatia de pão com manteiga cai geralmente com o lado da manteiga para baixo. A prevalência da “falta de sorte” foi confirmada por um estudo experimental, patrocinado por um fabricante de manteiga: o aparente azar deve-se simplesmente à relação física entre as dimensões da fatia e a altura em que estava colocada.

São também explicáveis outros tipos de infortúnio, como o fato de que quando retiramos duas meias soltas da gaveta geralmente elas não são do mesmo par. Além disso, tendemos a dar mais atenção a fatos rotineiros que nos frustram (como perder o ônibus por chegarmos ao ponto com segundos de atraso), em vez contabilizar o grande número de ocasiões em que não tivemos contratempos. Essa atitude contribui para reforçar nossos preconceitos e nos fazer ignorar as leis da probabilidade.

O psicólogo Richard Wiseman, professor da Universidade de Hertfordshire, na Inglaterra, também conduziu um estudo interessante sobre os mecanismos relacionados à sorte. O projeto, financiado por várias instituições, entre as quais a Associação Britânica para o Avanço da Ciência, gerou um manual chamado O fator sorte, traduzido em mais de 20 idiomas.
Ele publicou um anúncio no jornal solicitando que pessoas particularmente sortudas ou azaradas entrassem em contato com ele para que seus comportamentos fossem analisados. Descobriu que cerca de 9% desses indivíduos podiam ser considerados azarados e 12% favorecidos pela sorte.

Todos os outros entravam na média. A análise experimental dos traços de personalidade que distinguiam as duas categorias permitiu concluir que os azarados são mais tensos e concentrados, ao passo que os sortudos tendem a considerar as coisas de forma mais relaxada, mas sem perder de vista o contexto geral. Wiseman deu aos participantes um jornal, solicitando que contassem as fotos impressas e prometendo um prêmio aos que o fizessem corretamente. Ora, o número solicitado estava gravado de forma evidente sobre uma das páginas, algo que muitos “azarados” não perceberam, pois estavam concentrados demais na tarefa. Se considerarmos os dados coletados, ter sorte pode significar, pelo menos em parte, saber fazer boas escolhas e criar oportunidades e as ocasiões mais vantajosas para si mesmo.

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