Por que ser grato

Por Eugenio Mussak em Vida Simples – 01/10/2013

A gratidão deve permear nosso dia a dia.Mas será que estamos sendo, de fato, gratos pelo que a vida nos dá?

– O que você está fazendo?

Não era necessário que ela respondesse. Eu sabia o que ela estava fazendo. Estávamos tomando café da manhã, o sol entrava pelas janelas, a vista de nosso apartamento é linda, nós dois estamos em perfeita saúde e o dia que começava prometia muitas emoções. Ela olhava para fora, e eu sabia que estava agradecendo. Mesmo assim, ela sorriu e me disse, confirmando minha certeza. Gosto disso. A gratidão como filosofia de vida nos faz melhores.

Minha primeira tarefa do dia seria escrever meu artigo para a vida simples, e eu agradeci pela inspiração. E resolvi escrever sobre gratidão. Com certeza não seria um artigo original, pois este assunto já rendeu muitos textos, escritos por pensadores melhores que eu. Esopo, por exemplo, explicou que “A gratidão é uma virtude das almas nobres”. Já Sêneca disse que “quem acolhe um benefício com gratidão paga a primeira prestação de sua dívida”. Flaubert queixou-se de alguém, dizendo que “aos incapazes de gratidão, nunca faltam pretextos para não a ter”.

Eu não seria nem justo nem coerente se não fosse grato a esses e outros cérebros brilhantes que alinham meus pensamentos e orientam meus escritos. Obrigado, pessoal, valeu!

O café terminou e começou o dia. E começou melhor porque sentíamos, ambos, uma gratidão antecipada pelo dia que tínhamos pela frente. Mas agratidão principal vinha da percepção de que eu era capaz de sentir gratidão. E isso me fazia bem.

Gratidão – atitude ou sentimento?

Isso também me fez lembrar de um grande amigo, o Portugal. Eu o conheci quando trabalhei na Universidade do Professor, no Paraná. Ele era um dos meus mentores. Ele tinha sido militar, diplomata e empreendedor, mas em seu peito sempre bateu um coração de educador, então abraçou com força a oportunidade de conduzir a capacitação de professores em um dos projetos mais belos que já se fizeram nessa área.

Até que um dia recebo o telefonema, que ninguém gosta, nem está preparado para receber. Portugal havia sofrido um derrame que o deixaria limitado. Ele sempre foi cuidadoso com a saúde, caminhava com vigor por uma hora de manhã, alimentava-se bem e fazia exames regularmente. E tinha aquela alegria natural que também protege a saúde. Mesmo assim, teve um avc. Coisas da idade, explicou o médico.

Ele já nos deixou, mas não sem antes nos dar mais uma lição de força. Durante o tempo que viveu depois do derrame, ele não podia caminhar, falava com alguma dificuldade e dependia da ajuda de sua incansável Verinha para as necessidades mais básicas. Mesmo assim, quando o visitava, ele me falava de projetos para o futuro, dos livros que estava lendo. Começou a estudar italiano e a frequentar um centro de equoterapia. À saída, ele costumava dizer: “Tenha gratidão. Sempre”. E sorria um sorriso menor, mas verdadeiro.

Foi em uma conversa com ele que eu comecei a entender uma diferença sutil, mas fundamental, entre agradecimento e gratidão. Agradecer é um ato, tem a ver com educação, reconhecimento e justiça. Gratidão é um sentimento, é algo que se carrega no peito, que pertence à pessoa como um valor, uma filosofia de vida. Um agradecimento sincero eleva a qualidade das relações entre as pessoas. Gratidão faz mais que isso. Eleva a qualidade humana de quem a tem.

Nada mais justo do que reconhecer o mérito de um ato bom. Agradecer um favor, um apoio, uma gentileza, uma orientação ou uma oportunidade não é apenas uma demonstração de reconhecimento e de educação. É um tributo à justiça.

Eu mesmo tenho de agradecer muito a muitas pessoas por muitas coisas. A meus pais pelos valores que me incutiram. A minha irmã, que me incentivou à leitura. Aos professores que me ensinaram, aos médicos que me curaram, aos chefes que me puseram na linha. Aos amigos, às namoradas, aos colegas, aos vizinhos. Tenho muito o que agradecer aos meus filhos e à minha mulher, e estou certo de que ainda terei muitos motivos para agradecer a ela, e a muitos.

Há tanto a agradecer, a tanta gente que passou por minha vida e que deixou marcas boas e indeléveis em meu caráter. Essas pessoas passaram, mas permanecem em mim. E sinto gratidão por isso. A elas eu já agradeci, educado que sou, mas a gratidão, aquele sentimento que aquece o peito, este continua comigo.

Agradecer faz bem

Sim, logo aprendi que agradecer é justo, melhora as relações e abre espaço para novos favores. É chato ser gentil e não perceber o menor traço de agradecimento. Agradecer é polido, simpático e prepara o terreno para uma convivência mais agradável e profícua. Lembro de ter aprendido que as três palavras mágicas são “por favor”, “desculpe” e “obrigado”. Teriam sido elas que criaram a civilização.

O fato que me custou mais tempo de percepção foi que a gratidão e o agradecimento nem sempre estão juntos. Como já foi dito, o ato de agradecer é nobre e polido, desde que tenha sido gestado no útero da gratidão. Senão é falso e interesseiro. Já a gratidão, esta é algo superior, que pertence ao espírito. Como é bom ser agradecido pela vida com todas as suas possibilidades. Como é necessário ser agradecido até às limitações e dificuldades, pois estas, não só nos melhoram, como nos ajudam a perceber o valor das possibilidades e oportunidades. “Não existiria luz se não fosse a escuridão”, cantou Lulu Santos.

Sem fazer nenhum proselitismo, eu afirmo que sinto imensa gratidão até por todas as crises que tive na vida (e quem não as teve?). No meio do furacão eu me revoltava com a vida, mas depois, pensando bem, eu sempre saí melhor de uma crise do que era quando nela entrei. Não há como pagar o ensinamento que uma crise, de qualquer natureza – emocional, financeira, existencial -, é capaz de incutir em nossa mente e em nossa alma. Sim, há muitas coisas que não há como pagar, a não ser com gratidão.

Quem sente gratidão tem necessidade de agradecer, e às vezes não sabe a quem. Em nossa cultura, fomos educados a agradecer a Deus, como nosso criador e provedor, tanto é que “graças a Deus” é uma expressão corriqueira, ancorada no arquétipo popular. Quem nunca disse “graças a Deus”? Essa expressão é tão forte que às vezes as pessoas se esquecem de agradecer a quem as ajudou em termos práticos: o médico, o bombeiro, o amigo, o policial. Bem, sempre podemos alegar que, graças a Deus, eles estavam por perto. Faz sentido.

Agradecer a Deus faz bem, conforta, dá a sensação de estar acompanhado. Mas às vezes pensamos: “Por que Ele não ajudou aos demais? Por que só a mim? Ou por que só não a mim?”. Mas logo afastamos essa pergunta, por um simples motivo. Ela não tem resposta. Somos muito pequenos para julgar, ou compreender, as intrincadas artimanhas do destino.

Gratidão a quem? A Deus? À vida? Não importa. O importante é a gratidão. Ela engrandece quem a sente e dará um jeito de atingir seu alvo. Sugestão: quando achar que não tem o que ou a quem agradecer, escute a chilena Violeta Parra. “Gracias a la vida, que me ha dado tanto…”. De preferência na voz da argentina Mercedes Sosa. Você vai agradecer a dica.

Esta é uma edição de aniversário da vida simples. Onze anos! E eu confesso que sinto uma imensa gratidão por esse convívio de tanto tempo. E sinto vontade de agradecer aos editores, desde o primeiro, que me convidou, o jornalista Otávio Rodrigues, até nossa querida Aninha Holanda. E, claro, agradecer a todos os leitores, que são, afinal, a razão da existência da revista. Muito grato, turma! Agradecer faz parte. Mas o importante não é isso. Importante é o fato de que todos carregamos em nós o agradecimento. E é ele que nos torna humanos de verdade.

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