Entenda por que somos responsáveis por nossas escolhas

Por Eugenio Mussak em Vida Simples – 02/03/2012

O que você está fazendo da sua vida? Eugenio Mussak explica porque, afinal, somos responsáveis pelos caminhos que escolhemos

Era o começo dos anos 1980. Eu, muito jovem, já tinha conseguido alguma independência e gostava de pensar que mandava em meu próprio nariz. Naquelas férias, viajei com amigos para os Estados Unidos e, uma vez lá, propus que visitássemos um dos símbolos do capitalismo e do american way of life: Las Vegas.

Saímos de carro de Los Angeles para uma viagem de cerca de quatro horas, em que se cruza a Califórnia por uma estrada perfeita, passando por pequenos povoados, inclusive a cidade fantasma de Calico, onde se espera ver um duelo na frente do saloon. De repente, após cruzar o deserto de Mojave, estamos em Nevada e, quando menos se espera, já se avistam as torres dos hotéis da Strip, no meio do nada. Las Vegas pulsa com luzes, pecados, risos, esperanças e desesperos. Em 2011, completou 100 anos de existência essa cidade artificial, construída no deserto do sonho norte-americano, para ser a capital dos prazeres.

Mas o que estaria eu, que não gosto de jogar nem palito, fazendo naquele lugar? Meus amigos não sabiam, mas o que eu queria mesmo não era ficar apostando fichas na mesa de black jack, e sim assistir a um show no lendário Golden Nugget, porque Las Vegas não é feita só de jogos, mas também de grandes espetáculos. O artista? Ele. A Voz. Frank Sinatra.

E Sinatra não decepcionou. Cantou Fly Me to the Moon, Strangers in the Night, New York, New York, fazendo o imenso teatro quase levitar; e de repente atacou uma música que mexeu comigo de um jeito que eu não esperava: My Way.

“I’ve lived a life that’s full/ I traveled each and every highway/ And more, much more than this/ I did it my way”…

A música, adaptada por Paul Anka da francesa Comme d’Habitude, é o desabafo de um homem que confessa que viveu intensamente, amou, viajou, riu, chorou e sabe que, em alguns momentos, mordeu mais do que podia mastigar. Mas de nada se arrepende, pois tem a consciência de que, tudo que fez, fez porque quis e, acima de tudo, fez como quis. “Fiz do meu jeito”, insiste – I did it my way.

O impacto sobre meu ser foi forte porque eu tinha duas dúvidas que ficaram mais fortes depois que eu refleti sobre a música. A primeira é se eu estava conduzindo minha vida do jeito que eu queria. A segunda é se, afinal, eu sabia que jeito era esse.

Autonomia e significado

Pelo menos uma coisa eu sabia: eu queria conduzir minha vida com base em minhas verdades (seja lá o que for uma verdade), e não baseado na dos outros, o que é uma empreitada e tanto.

Nietzsche costumava perguntar: “Você viveu sua vida? Ou foi vivido por ela? Escolheu-a, ou ela escolheu você? Amou-a ou a lamentou?” E, quando lhe pediam conselhos, o alemão dizia: “Não posso lhe ensinar como viver de forma diferente, pois, se o fizesse, você continuaria vivendo o projeto de outrem, e não o seu próprio”. Ter um projeto próprio é uma busca demasiadamente humana. Mas… como?

A quantidade de influências que recebemos ao longo de nossa vida, com pessoas procurando nos moldar e nos transformar em uma espécie de replicantes, é imensa. E não há erro aparente nisso, pois qual é o pai que não quer o bem para a vida de seu filho e, nessa busca, acaba influenciando suas escolhas e seus caminhos?

Mas um pai não pode viver de novo sua vida por meio de seu filho. Ele pode orientar, alertar, ensinar, mas não viver a vida do filho, ou pelo filho. Dar raízes e asas, esse é o grande desafio da paternidade. Mas não é fácil, eu sei. É difícil lembrar que cada um nasce para viver sua própria vida.

E os professores? Qual o professor que não cumpre sua missão de educar mostrando qual seria a boa trilha a seguir pela vida? Educar é influenciar, não tem jeito. Mas educar é, ou deveria ser, acima de tudo, ensinar a pensar, e o pensamento com qualidade conduz, ou deveria conduzir, a duas lições que são as mais belas que um jovem pode aprender: a autonomia e o significado.

Ser autônomo significa fazer suas próprias escolhas e assumir responsabilidade por elas. Não quer dizer, cuidado, que se possa fazer o que se quer, atender a seus desejos desconsiderando totalmente as expectativas dos outros, do mundo. Autonomia é razão lúcida, equilíbrio, e pressupõe responsabilidade, maturidade, disposição para assumir seu destino. A razão emancipada nega a tutelagem e a subordinação. A razão esclarecida é a razão absoluta da autodeterminação.

E ter significado quer dizer estar conectado com uma atividade que faça sentido, que nos dê a certeza de que estamos no caminho certo, fazendo o que gostamos e que aquilo que fazemos torna o mundo melhor.

Mesmo sem saber, à medida que amadurecemos, buscamos, às vezes desesperadamente, essas duas grandes conquistas: a autonomia e o significado. Autonomia para gerir sua própria vida e significado para sentir prazer em viver. Enquanto a autonomia garante minha liberdade de escolher, o significado me dá a certeza de que estou vivendo a vida que eu quero viver. Do meu jeito.

Naturalmente, o jovem é levado a providenciar, em primeiro lugar, a autonomia. Pagar suas contas, garantir sua sobrevivência, não depender mais de seus pais nem de ninguém. E isso está certo, pois quem continua dependente jamais caminhará com suas próprias pernas. O problema é que às vezes, na pressa pela autonomia, acabamos presos a um sistema que não nos faz felizes. E é nessa armadilha que se encontra o grande inimigo do my way.

Conheci, recentemente, um jovem nem tão jovem assim, beirando os 40, que desabafou comigo, dizendo: “Eu queria ser músico, mas virei contabilista. Eu queria viajar pelo mundo, mas nunca saí da cidade. Eu queria ter meu próprio negócio, mas fui trabalhar em um banco”.

Em primeiro lugar, é necessário dizer que não há nada de errado em estudar contabilidade, morar sempre na mesma cidade e trabalhar em um banco. Mas tem que ser por escolha. Conheço contabilistas felizes e músicos angustiados. Funcionários serenos e empreendedores estressados. Há de tudo. Em todos os caminhos. O que fica claro, estampado no rosto, transbordante pelo olhar, é a satisfação de estar fazendo o que se escolheu fazer.

O preço a pagar

Bem-vindo ao mundo real, em que o caminho é representado por um dilema: sem autonomia não posso lutar por aquilo que tem significado para mim, e sem trabalhar com significado dificilmente atingirei a verdadeira autonomia.

Eu percebi isso analisando minha própria história e a de outros. E também observando a vida, lendo livros e poemas, apreciando arte. Na estação Montgomery do metrô de Bruxelas, por exemplo, não é possível não se emocionar com a decoração feita por um dos mais importantes artistas belgas, Jean-Michel Folon. Pode ser que seja só comigo, mas Folon me faz refletir sobre meu caminho e meu jeito de segui-lo.

Em seu quadro chamado Foule II, pessoas caminham como se estivessem hipnotizadas, seguindo por uma espécie de corredor, com comportamento de manada, e algumas setas sinalizam os caminhos que devem seguir.

Entretanto, em suas cabeças, grandes olhos brilham como luminosos, na expectativa de encontrarem seus próprios caminhos. No Yes to Freedom, um pássaro senta sobre a mão e aponta para o coração de um homem que tem uma gaiola na cabeça. No Un Monde, um menino senta-se pensativo e há um mundo em sua cabeça, querendo transbordar.

Folon foi, para mim, o Sinatra dos pincéis. Ambos me fizeram pensar sobre as imensas possibilidades dos campos da vida e sobre minha responsabilidade em construir meu caminho nessa paisagem. A história de um homem depende dele mesmo e depende também do mundo. Há os que creditam a construção de sua história apenas ao mundo. Estes são deterministas. Há os que acreditam só em si mesmos. Estes são os possibilistas. E há os que confiam em seu discernimento para seguir a vida, mas não desconsideram o efeito do mundo, do acaso. Estes são os estrategistas.

Ser como se quer ser. Ousar sonhar seu próprio sonho. Ouvir os outros, mas depender apenas de si mesmo para tomar as decisões. Estas são as qualidades daqueles que dizem que vivem sua própria vida, e não as dos outros. Como diz Renato Teixeira em seu Tocando em Frente, que compôs com Almir Sater: “Cada um de nós compõe a sua história, e cada ser em si carrega o dom de ser capaz, e ser feliz”.

Ao meu amigo contabilista eu quero dizer que nós precisamos que ele faça com que este mundo tenha o mínimo de organização. Imagine este planeta só com artistas e poetas. Quem colocaria ordem na casa? Por favor, organize o mundo, aplique as leis, crie estratégias de fluxo de caixa, faça as colunas de débitos e créditos fazerem as pazes entre si. Sem isso, o caos tomaria conta e a barbárie voltaria.

Seja um contabilista, mas seja o contabilista que você quer ser. Do seu jeito. Aliás, quando se fala em artes e artistas, eu me pergunto: quem é mais artista? Aquele que faz arte ou aquele que faz o que não é arte parecer arte? Cada vez mais aposto no segundo. Trata-se da arte de quem desenvolve a capacidade de fazer de seu jeito, por isso faz bem. Com autonomia e com significado.

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