PERCEPÇÃO SUPERFICIAL: HIPERATIVIDADE OCULTA X PASSIVIDADE

Por Leonardo Maia em Biblioteca Virtual da Antroposofia – 15/04/2015

Num mundo tão veloz, com muitas informações, não é de se admirar que não consigamos nos aprofundar muito em certos temas, assuntos ou mesmo percepções.

Se não estivermos “atentos” e rápidos, ficamos para trás, não nos atualizamos e podemos perder a interação com o complexo mundo da chamada “Era da informação”.

Ora, isso não nenhuma novidade, mas existem outros fatores que devem ser analisados.

A vida moderna exige muito, pois trabalhamos durante um período longo, jornadas de 6 até 12 horas diárias. Temos nossos compromissos particulares, com nosso lar, com nossos cônjuges, nossos filhos, nossas obrigações como cidadãos (prestar contas, pagar impostos, ter atenção aos padrões regulamentados como lei e etc…).

Então temos que dividir nossa atenção em muitos aspectos, mas muitos mesmo. Somente isso já seria o suficiente para causar uma overdose de atividades mentais.

Temos muitas coisas pra pensar e lembrar, muitas informações para absorver e processar. Isto acaba gerando um estresse mental e em geral, muitas, mas muitas preocupações (pré ocupação) que ajudam a ocupar nossa mente com aspectos que ainda não aconteceram, aumentando ainda mais a nossa percepção de tempo reduzido. Quem nunca ouviu a frase do capitalismo que “tempo é dinheiro”? Corra, pois não podemos perder tempo…

Esse constante esforço para cumprir nossas obrigações, faz com que nossa vitalidade diminua e ficamos cada vez mais cansados e fragilizados, podendo ocasionar até doenças… e principalmente um enfraquecimento da vontade e o desenvolvimento da passividade.

Somos exigidos demais mentalmente dentro de exigências externas, como trabalho, soluções de problemas (financeiros, familiares, relacionamentos sociais e etc…) e ficamos sem disposição e “vontade” para uma busca autêntica individual, buscando um conforto em prazeres sensoriais.

Uma das consequências deste excesso de informações e obrigações aliada a percepção de curto espaço de tempo é a necessidade de navegar superficialmente através dessas informações e a de sermos seletivos quanto a quais devo e quero absorver, o que nem sempre acontece e quem acaba muitas vezes fazendo essa escolha das informações passa a ser as mídias sociais: principalmente jornais, revistas, tv e internet e o governo.

Isto tem um efeito muito interessante, que é a padronização do conhecimento e do pensamento, criando linhas de pensamentos padronizados, que na verdade não são escolhas nossas, mas acabam entrando por um efeito de passividade.

Esta passividade pode ser desenvolvida por um excesso de esforço em achar soluções para nossas questões e obrigações do dia a dia, isso pode desenvolver um estresse e  preocupação (em vários níveis de intensidade), que desgasta o indivíduo mentalmente. E torna muito comum a necessidade de no final de semana, sair com amigos, sem compromissos, apenas para me divertir e relaxar, não pensar em “nada”, apenas para “desestressar”. Muitas vezes fazendo o uso de drogas lícitas (álcool) ou ilícitas para ajudar a parar de pensar nos problemas. Ou mesmo buscar prazeres sensoriais como fazer sexo ou comer “gostosuras” e até projetar as satisfações na aquisição e consumismo, como comprar um carro novo ou fazer compras, consumir passa a aliviar muito de nosso estresse…

Outro aspecto interessante é a adaptação da mente com a velocidade das informações, que diminui nossa capacidade de concentração devido a mudança contínua de foco ou do padrão da informação apresentada. Essa adaptação pode gerar uma sensação de tédio caso não haja nenhuma mudança na percepção ou nova informação. Isso é muito reforçado pelas imagens de TV ou de computadores,tablets e celulares, que modificam o padrão da informação absorvida pelo cérebro numa velocidade incrivelmente grande. Perceber o movimento de um objeto real é muito diferente do que absorver milhares de padrões coloridos piscando a grande velocidade para formar imagens, isso acontece mesmo em uma tela aparentemente estática.

Nosso cérebro acaba se adaptando a este burbulhar de informações e necessita de uma pausa, para voltar ao normal. Atividades como meditação, ouvir música clássica, caminhar na natureza e praticar esportes são excelentes para aquietar nossa mente.

Agora imagine que uma criança, que é puro movimento e descoberta, e ainda não possui uma consciência de comportamento social, possa realmente desenvolver uma hiperatividade no comportamento, dificuldade de concentração e outras questões, pois podem literalmente pular de uma percepção sensorial para outra numa velocidade muito grande.

Caminhar através das superfícies pode acarretar em muitas consequências, como dificuldade de compreender os próprios pensamentos e escolhas, generalização do pensamento, desenvolvimento de relações superficiais, medo da solidão e dependência, dificuldade de perceber o que é sutil e buscar satisfação em percepções sensoriais brutas, não perceber mais onde é o limite do “eu” e do “outro”…

Entrar em estados de concentração, contemplação, apreciação, veneração e satisfação passa a ser um enorme desafio!!!

Pergunto: Isso é uma consequência natural do caminho de desenvolvimento humano ou projetado?

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