Os detalhes no dia a dia

Por Eugenio Mussak em Vida Simples – 14/05/2015

São as delicadezas e as pequenas sutilezas que fazem a diferença nas relações que tecemos ao longo do caminho.

O Olhar humano é capaz de varrer rapidamente uma cena com relativa complexidade e ver todos os elementos, mas isso não significa que eles serão percebidos ou registrados. Antes, o cérebro tem que processar os componentes daquele espaço e, para isso, precisa de ajuda. E quem vem em socorro são dois facilitadores da percepção: o significado ou o detalhe. Imagine que você entra em um escritório à procura das chaves do carro. Mesmo em meio à profusão de coisas de uma mesa de trabalho, você vê o que procurava. É que você já havia feito uma imagem mental do objeto desejado e, ao vê-lo, imediatamente fez a conexão e o fato se realizou. Valeu o significado. Mas, se olhar para a mesma mesa sem procurar algo específico, você só vai perceber aquilo que, de alguma forma, fuja do trivial. Uma flor vermelha em um vaso de cristal, por exemplo. Aqui, você foi alertado pelo detalhe.

Perceba o poder do detalhe na análise que fazemos do mundo, incluindo o comportamento das pessoas com quem convivemos. Em geral, elas são lembradas pelos pequenos atos – e não pelos grandes –, pelo simples fato de que realizamos muitos pequenos atos em nosso cotidiano. Claro, algo como um feito heroico ou um trabalho excepcional irão marcar e criar memória. Mas, no dia a dia das relações, nossa imagem será construída a partir de nossos pequenos comportamentos. Para o bem ou para o mal, os detalhes nos denunciam.

O lugar do detalhe

Quando o apartamento que havíamos comprado na planta ficou pronto, chamamos o decorador João Rigo, que se tornara um amigo. Entre escolhas e orçamentos apertados, se passaram seis meses antes que o lugar ficasse habitável. A quantidade de detalhes era assustadora.

Certa vez reparei que o João dava muita importância ao banheiro das visitas, um dos cômodos menos utilizados: as cerâmicas, os metais, o toalheiro, o sabonete. Quando um pingo de tinta foi encontrado no chão, o pintor foi imediatamente chamado.  E lhe perguntei por que tamanha preocupação com algo de uso esporádico. Não deveríamos gastar mais energia com a decoração da sala? – Pense um pouco – explicou – você recebe uma visita. De repente, seu convidado vai ao banheiro. Ele entra, fica sozinho e faz o que, além de usar as instalações? Repara nos detalhes. Não mais esqueci tal lição. Naquele momento de reclusão em um pequeno espaço, a pessoa realmente se dedica a observar, e fatalmente vai detalhar os acabamentos. E, para fechar o assunto, João declarou: – Sua reputação depende do lavabo! – E virou-se para os operários brandindo ordens. Claro, João tem na observação das miudezas o seu ofício. Mas, mesmo sem saber, todos somos sensíveis aos detalhes, seja nos ambientes, seja nas pessoas.

O detalhe nas relações 

Minha amiga Priscila, de repente, se percebeu apaixonada. Ela me contava sobre o namorado, com quem tinha almoçado, quando seu smartphone anunciou uma mensagem. Era dele, dizendo que o encontro tinha sido maravilhoso, e que sua tarde seria melhor por causa disso. – Como não estar apaixonada? – disse ela, com um sorriso de menina. E, assim, a mensagem teve um efeito maior que o próprio almoço. O detalhe seduz, surpreende, alegra, faz sorrir. É o quadro colorido na parede branca, a rosa branca no buquê vermelho, a frase alegre no discurso sério. É o poeta (Paulo) Leminski dizendo: “Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além”. Isso dito no meio de uma discussão chata sobre o existencialismo sartreano. Aliás, é na boa literatura que nos fartamos de detalhes encantadores. Machado de Assis, por exemplo, as- sim relata um personagem na orla do Rio: “Ao passar pela Glória, Camilo vê o mar e estende os olhos até onde a água e o céu se dão um abraço infinito”. Vamos concordar. Olhar o horizonte no mar é uma coisa. Perceber o ponto onde o céu e o mar se dão um abraço infinito é outra coisa. Dá vontade de estar lá. E estamos lá… Machado nos coloca na cena, somos protagonistas de suas histórias, sentimos a respiração dos personagens, a emoção dos momentos. Graças aos detalhes de sua rica descrição. Preocupar-se com essas miudezas é ver o que é invisível aos olhos e às almas menos sensíveis. Quando Roberto (Carlos) cantou que “Detalhes tão pequenos de nós dois são coisas muito grandes pra esquecer”, ele não estava apenas fazendo a apologia de um romance, mas chamando atenção para o singular, para o fato que faz a diferença. Um namoro que não cultiva isso é só uma amizade. A Lu, minha esposa e especialista em detalhes, alimenta nossa relação com pequenos mimos. Sem eles até dá para viver, talvez sua ausência não seja notada. Mas sua presença faz a diferença. Quando me traz um copo de leite enquanto trabalho, ou quando escreve “I love you” em suas pálpebras (como ela fez isso?) e fecha os olhos para que eu possa ler a mensagem, ela está lançando mão do mais poderoso antídoto à monotonia e de- clamando o mais sublime poema da vida cotidiana: o detalhe.

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