Saiba virar a página

Por Leandro Quintanilha em Vida Simples – 13/03/2018

Descubra como perceber o fim de um ciclo, um relacionamento ou mesmo uma escolha profissional. E se é chegada a hora de seguir em frente, talvez em outra direção

Alguns finais de ciclo a vida impõe. A infância passa, a escola termina, o amor acaba. E a vida também. Ainda assim, os ciclos mais desafiadores talvez sejam os que você mesmo precisa delinear quando começam e terminam. É a liberdade angustiante de legislar sobre a própria existência. De compreender – ou apostar – quando é o momento propício de virar a página nos relacionamentos, no trabalho, na rotina. A interrupção, contra a sua vontade, de uma etapa importante pode ser dolorosamente aguda, mas não devemos subestimar a indecisão melancólica de quem precisa estabelecer o tempo preciso de cada coisa. Há um haicai do escritor Millôr Fernandes que diz assim: “A vida é um saque/ Que se faz no espaço/ Entre o tic e o tac”. Como o tempo, a vida é feita de ciclos. Há uma experiência comprimida entre o início e o fim de cada etapa. Muita gente reclama que o tempo passa depressa demais (e há uma explicação para essa sensação, como você vai ver logo mais), mas poucos se dão conta de que nossos ciclos também ficaram mais curtos. Boa parte dos relacionamentos tem duração menor, quando comparados aos de nossos antepassados, e também dificilmente mantemos o mesmo emprego por anos e anos. E você pode pensar sobre isso com uma dose de alívio e perplexidade.
A liberdade de fluir por aí traz consigo um desafio filosófico: mudar pode ser inspirador e renovador, mas quais são as consequências de partir de maneira frenética? Ficamos menos engajados no que fazemos e sentimos. Porque ciclos mais diminutos, em geral, significa que não nos dedicamos de maneira genuína em cada atividade, fase e mesmo em cada pessoa. A vida pode ficar mais variada assim, mas com perdas importantes em contrapartida. Há outro haicai do Millôr que se aplica agora: “Probleminhas terrenos:/ Quem vive mais/ Morre menos?”.
Tem ficado cada vez mais complexo demarcar a duração ideal de cada ciclo, para não esticar indefinidamente uma fase já esgotada ou, ao contrário, não precipitar o desfecho de uma etapa ainda em processo. Um exemplo de período exaustivamente prolongado é o fenômeno geracional dos “nem-nem” (ou “nenéns”), jovens que não trabalham, nem estudam. Segundo o IBGE, um em cada cinco brasileiros entre 15 e 29 anos encontra-se nesse limbo. Especula-se que os motivos sejam os mais diversos: da imaturidade à falta de perspectivas, passando ainda pela depressão. Uma versão mais grave seria os “nem-nem-nem”, gente que não trabalha, não estuda e sequer procura o que fazer. Vivem à margem dos ciclos da vida.
De fato, crescer pode ser doloroso. Na crônica “O Direito à Tristeza”, o psicanalista Contardo Calligaris discorre sobre um paradoxo da infância nos dias de hoje. É que os pequenos têm dois deveres. O primeiro seria o de cumprir essa etapa, de crescer e deixar de ser criança. O outro é o de ser feliz (ou, ao menos, encenar a felicidade para os adultos), uma imposição cultural de uma sociedade que idealiza a infância como a época na qual os ciclos acontecem e não precisamos escolher. “Esses dois deveres são um pouco contraditórios, pois, crescendo e saindo da infância, a gente descobre, por exemplo, que os picolés não são de graça”, escreveu Contardo. “Em suma, se obedeço ao dever de crescer, desobedeço ao dever de ser feliz.”
Por sua vez, os ciclos interrompidos precocemente são aqueles que perderam a guerra contra a ansiedade, o medo ou, algumas vezes, a imaturidade. Como o jovem que escolhe outra carreira por não passar de imediato no vestibular de sua primeira opção. Ou alguém que termina um namoro promissor diante das primeiras dificuldades de convivência. Eu mesmo já me afastei de um amigo por causa de uma discordância desimportante. Você provavelmente já fez algo assim, não? Pare para pensar um instante e encontre um exemplo de precipitação na sua trajetória. Rever os fatos, agora de uma maneira mais distanciada, nos ajuda a compreender melhor nossas atitudes do passado. Fazer isso é um passo importante para o amadurecimento pessoal. Outro caminho é experimentar uma estratégia conhecida entre os psicólogos como reprinting (reimpressão). Nela, você pensa sobre um episódio malsucedido, ou mesmo traumático, tentando imaginar como aquela experiência poderia ter sido mais saudável, se você e as outras pessoas envolvidas tivessem manejado a situação com mais sabedoria. Assim, você transforma uma lembrança ruim em aprendizado. E quando analisa a situação por outras perspectivas, é possível, finalmente, perdoar a todos. Especialmente a si mesmo.

Ficar ou desistir
O sociólogo polonês Zygmunt Bauman tem contribuído com a reflexão contemporânea sobre o tempo, por meio de conceitos presentes em seus livros, como “modernidade líquida” e “amor líquido”. Para ele, esferas da vida como amor e trabalho reproduzem valores da sociedade de consumo. Tudo duraria apenas uma temporada, como um produto descartável. Observe: o trabalho flui de uma organização para outra, assim como do escritório para casa, dos dias úteis aos fins de semana. Da mesma maneira, o amor flui de uma pessoa a outra de modo mais volátil, capaz de evaporar diante das primeiras dificuldades e frustrações. É claro que a possibilidade de se divorciar de alguém com quem você não se identifica mais ou mudar de emprego (ou de profissão), para algo mais recompensador, são conquistas históricas. Não há mal em terminar aquela etapa para seguir em frente. De novo: o problema é escolher o tempo todo como forma de não escolher realmente nada.
Por outro lado, encerrar um ciclo já esgotado também requer coragem e desapego. Há sete anos, escrevi para esta mesma revista uma reportagem sobre as vantagens de se reformar a casa, com base na experiência que estava passando com o meu primeiro apartamento, recém-comprado. Hoje, sinto que esse ciclo se fechou e acabo de colocá-lo à venda. Foi uma decisão que me deixou inseguro por meses, mas que me enche de entusiasmo agora. Outro texto que fiz por aqui (“Como se Desapaixonar”) foi sobre o fechamento de um ciclo amoroso. Nele, reuni alternativas do que uma pessoa pode fazer para superar um amor nocivo ou não correspondido. O fato é que a vida está cheia de começos e fins, alguns simultâneos, que temos de administrar. Refletir sobre eles é o melhor jeito de prosseguir em um caminho saudável, sem atropelos, ou encerrar uma experiência no momento oportuno.
A relações públicas Paula Martinelli precisou de muita coragem para encerrar um período profissional. Isso foi há três anos, quando trabalhava em um canal da TV paga e tinha boas perspectivas para crescer na carreira. O problema é que Paula se sentia extenuada pela rotina. Estava cansada de cumprir uma jornada extensa, sem folgas para fazer uma porção de coisas que gosta e até mesmo para cuidar de si mesma. Mas, como a maioria de nós, ela não podia largar tudo de uma hora para outra. Na época, pagava a prestação de um apartamento e tinha muitos gastos com o cartão de crédito. Foi então que bolou um plano: vender o imóvel, pagar as dívidas, cancelar os cartões e começar uma nova história em um lugar menor, mas quitado.
Paula colocou o plano em prática. Reformou o apê novo e pediu demissão do emprego, com a proposta de trabalhar como freelancer. “Logo na primeira semana, minha avó precisou fazer uma operação e percebi que poderia acompanhá-la, sem ter que negociar isso com meu chefe”, conta. Foi um episódio emblemático da rotina que levaria dali para frente. Na época, seus rendimentos caíram pela metade, mas ela soube se organizar. “Quando você trabalha muito, acaba gastando mais, por auto-indulgência”, analisa. Mais feliz, Paula percebeu que não precisava consumir tanto. Agora, ela se dedica à fotografia e à produção de cinema. Também pratica ginástica funcional e planeja fazer mestrado. E acaba de vender o apartamento para comprar uma casinha, um sonho antigo, e, assim, começar a escrever um novo capítulo de sua vida.

O tal momento certo
Como chegar ao ponto exato da mudança? Não existe uma fórmula. É você quem vai ter de decidir, de tempos em tempos, se o melhor é permanecer mais um pouco onde está ou virar logo a página. Da mesma maneira, é preciso se cuidar para evitar a desistência, por um lado, e a teimosia, por outro. O fato é que as possíveis respostas para esse dilema são inevitavelmente suas – e você terá de pesquisá-las em si mesmo.
Existe uma corrente de pensamento filosófico, conhecida por antroposofia, que dá algumas pistas sobre o momento para seguir em frente. E isso pode ajudá-lo a ponderar suas decisões. A antroposofia foi desenvolvida pelo educador austríaco Rudolf Steiner (1861-1925). Steiner defendia que os grandes ciclos da vida têm duração média de sete anos, denominados setênios. Percorreríamos dez etapas, de sete anos cada, ao longo da nossa existência. Nos três primeiros ciclos, de zero a 21 anos, ocorrem o desenvolvimento físico e a formação da personalidade. Os três seguintes, dos 21 aos 42, são os “setênios da alma”, no qual os valores são testados e afirmados em esferas como carreira, relacionamentos e vida em família. A partir dos 42, a sabedoria proporcionada pelas experiências acumuladas nos levaria a um progressivo aprofundamento espiritual, para, assim, alcançar o envelhecimento de maneira sábia e suave.
Outro aspecto que precisa ser colocado na balança é a nossa atual relação com o tempo. Você deve ter a sensação de que tudo está mais ligeiro, mais descartável, incluindo aí o tempo dedicado às relações – amorosas ou profissionais. “Vivemos uma transição importante: de uma vida padronizada, previsível, para uma existência múltipla, flexível, de várias possibilidades”, afirma o psicanalista Jorge Forbes. Em outras palavras, passamos de uma sociedade vertical (a partir do poder exercido pelo pai, pelo chefe e pela figura de Deus), para uma versão horizontal, com múltiplas referências. De algum modo, temos muitos pais, chefes e deuses simultaneamente. Ainda que o pai seja a ambição; o chefe, o sucesso; e deus, as redes sociais. Ou outras tantas variantes.
É possível dizer (sem nostalgia) que, em uma sociedade padronizada, havia uma compatibilidade maior entre horários e atividades, obrigações e o período para executá-las. Atualmente, temos que optar a todo instante, sem pausas para reflexão, sobre o que fazer e o que negligenciar. Expressões como “o tempo é senhor da razão” e “é preciso dar tempo ao tempo” ficaram obsoletas. O tempo deixou de ser um processo (ou parte essencial do processo de escolha) para se tornar um produto, a escolha em si. “Viver dá mais trabalho agora”, resume Forbes. Somos como fregueses de um restaurante self-service – queremos provar de tudo e sofremos ao ter de escolher. “Estamos empanturrados de opções”, brinca o psicanalista. Vou além: empanturrados de opções e de ciclos.
Além (ou por causa) de tudo isso, sofremos da tal sensação de que os meses e os anos passam cada vez mais depressa. E isso tem a ver com a forma como funciona o cérebro, como explica o médico Rogerio Panizzutti, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro. “Percebemos o tempo em comparação ao que temos armazenado na memória”, diz Panizzutti. Por isso, uma criança percebe sua passagem de maneira mais lenta que um adulto, que já tem muitas lembranças acumuladas. Quando, por exemplo, a memória é prejudicada por uma doença como o Alzheimer, a pessoa também tem sua percepção alterada. Sem ela, podemos voltar de um ciclo a outro em um instante, sem perceber. É o que acontece no filme canadense “Longe Dela”, de Sarah Polley. Na história, Fiona (Julie Christie) e Grant (Gordon Pinsent) formam um casal maduro que precisa lidar com o adoecimento da mulher. Com Alzheimer, ela revive a dor de ter sido traída pelo marido porque esqueceu que já o havia perdoado.
Por outro lado, o excesso de memória também provoca confusões temporais. “Quando somos expostos a uma sobrecarga de informações, nossas experiências se tornam menos marcantes e mais diluídas”, explica Panizzutti. Percebe que não é o tempo? Você é que ficou mais atarefado e distraído. Esse é o problema de ciclos concomitantes, como trabalhar e estudar simultaneamente, numa época em que a nossa relação com o tempo ficou tão mais confusa. A tecnologia tem feito dessa sobreposição um estilo de vida: conectado a notícias, ao e-mail e às redes sociais, você está virtualmente em vários lugares no mesmo instante e precisa lidar, muitas vezes, com demandas conflitantes. Assim, sobrecarregados, podemos nos confundir se fizemos determinada viagem com este ou aquele amigo, este ou aquele companheiro. Por falar em relacionamentos, também somos hoje muito mais expostos a estímulos e experiências do que em qualquer outro momento de nossa história. As redes sociais funcionam como uma propaganda da felicidade alheia – diversas vezes, enganosa. E a pornografia na internet é infinita, proporcionando o contato com padrões idealizados de desejo, satisfação, intimidade e prazer, que podem transformar a forma como nos relacionamos. Ficamos, dessa maneira, mais rigorosos (e delirantes) sobre o que esperar do parceiro. E de nós mesmos.

A decisão é sempre sua
A tecnologia, que nos poupa tempo e energia em tantas ocasiões (um viva para o ciclo rápido da lavadora de roupas!), também nos lesa de uma coisa e de outra. “O tempo virtual atravessa as dimensões cronológica e experimental da vida”, afirma Hélio Deliberador, professor de psicologia da PUC (SP). Você agora tem duas vidas, uma real e uma virtual, simultâneas. O professor de psicologia compara a experiência temporal do homem contemporâneo com a da tripulação de um avião, que viaja de um continente ao outro num mesmo dia. Transitamos a todo instante entre a realidade e a internet, variando fusos de forma sobre-humana.
O antídoto para isso é identificar o significado de cada fase, o que só se encontra (ou se atribui) com alguma reflexão. Por isso, todo mundo precisa de pausas eventuais, para procurar sentido no que se está vivendo. Um momento fora do turbilhão. Assim, você aprende a aceitar que o tempo tem seu próprio ritmo, que a vida tem seus ciclos, e que cada ciclo tem seu fim. No mais, é fundamental se manter consciente de que você só pode fazer o melhor possível a cada momento. Millôr Fernandes morreu em 2012, aos 88 anos, encerrando uma trajetória longa e caprichadíssima. Ele tinha suas inquietações, é claro, mas aprendeu a fazer delas uma inspiração: “Não, eu não tenho medo do fim,/ Mas,/ E se tudo terminar antes de mim?”.
Se você pensar bem, o tempo fica – é você quem passa. Como cada ciclo toma o seu tempo, o ideal é aprender a contemplar as fases, para compreender melhor os contornos. Já que é você quem passa, procure saber se deve apressar o passo ou diminuir o ritmo durante a caminhada. E não se culpe diante de eventuais precipitações ou procrastinações. É uma questão de sabedoria, o que também é um baita ciclo.

 

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